Golden Gate Bridge

Sexta, 22 Junho 2012 12:40
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                 Aquele jovem de cabelos compridos, negros, esvoaçantes, parecia alienado em si próprio, carregado de tristezas e agonias, ao caminhar pela ponte... 

               Vestido com calça e jaqueta de couro preto, ia e vinha pela via de pedestres como a procurar algo que havia perdido. O pensamento vago e triste se exteriorizava em seu andar lento e compassado. Quem o via não notava que em seu íntimo a dor extravasava seu Espírito. Sofria muito por não saber o que fazer para libertar o seu eu das angustias que carregava no peito havia muito tempo.

               Depois de perambular por longo tempo, ensimesmado em sua agonia cruel, nem chegou a perceber duas senhoras que o observavam de perto.

               Num gesto rápido, de costas, subiu ao parapeito da ponte e sentou-se sobre ele. Assim permaneceu por alguns segundos olhando a passagem dos carros e dos pedestres pela ponte, sem que em momento algum virasse a cabeça para olhar o abismo às suas costas.

               De súbito, apoiou-se no parapeito com o braço esquerdo e num gesto rápido, ficou em pé sobre ele. Não olhou para o abismo que havia em seu interior, nem no precipício escancarado que o chamava para o derradeiro martírio. Simplesmente jogou-se, reto, de costas, sem dobrar o corpo e caiu no vazio, indo despedaçar seu corpo nas águas geladas, depois de alguns segundos de queda.

               Estava findo o seu plano de morrer, jogando-se da ponte mais famosa do mundo, muito procurada por aqueles que planejam suicidar-se...

 

Golden Gate

               Neste ano, em maio, os americanos comemoraram o 75º aniversário de sua ponte mais famosa: a Golden Gate em São Francisco.

               A ponte foi aberta para o público em 27 de maio de 1937 e para os veículos no dia seguinte. Era a ponta suspensa mais longa do mundo com 2.737 metros de comprimento e 27 metros de largura. As suas duas torres estão a 230 metros e as pistas ficam a 67 metros da água.

               A ponte é acessível a pedestres e ciclistas e calcula-se que 1.218 pessoas saltaram da ponte até o ano de 2006.

               A descrição que fizemos no início do texto é das imagens mostradas pelo cineasta Eric Steel, que durante um ano filmou a ponte, transformando o trabalho no filme denominado “A ponte”. Durante as filmagens, 24 pessoas se jogaram da ponte em busca da morte.

               O fascínio que as pessoas têm pela ponte faz com que seja um dos locais mais procurados no mundo para se cometer suicídio.

               Um dos suicidas não morreu ao bater nas águas geladas e foi entrevistado pelo cineasta. O jovem caiu de pé e teve inúmeras fraturas, o que o faz andar apoiado o tempo todo. A partir do momento que não conseguiu morrer, descobriu que o queria, na realidade, era viver.

               Raros são os que conseguem escapar com vida quando do salto da ponte, pois são 67 metros de altura e a água se transforma em uma barreira dura como se fosse pedra.

               Geralmente, quem se aventura a morrer pelo suicídio não conhece a vida no mundo espiritual e não sabe o que acontece com os suicidas. Se soubessem que os suicidas ficam longos anos repetindo o gesto de se jogar da mesma ponte, agora com consciência do ato, sentindo-se no vazio ao encontro com a morte, não o fariam e procurariam outras coisas para fazer e viver, simplesmente viver.

               O Espiritismo está no mundo também para ajudar os que não sabem o que acontece com os suicidas no mundo espiritual a esclarecê-los para que evitem o ato supremo de se tirar a vida. Essa é uma das missões da Doutrina Consoladora e é importante que as pessoas saibam disso e procurem a alegria de viver no auxílio aos doentes e necessitados.

               Quando se tem muitas atividades no bem, não se tem tempo de pensar bobagens e cometer suicídio. Como diz o axioma popular: - “Cabeça vazia é oficina do demo”.

 

Pontos luminosos:

               Existem lugares no mundo que ficam famosos por proporcionar algum tipo de êxtase a certos grupos de pessoas. A rota 66, uma estrada dos Estados Unidos é um lugar solitário em que todos os amantes do motociclismo de estrada sonham um dia percorrer. Viajar por essa estrada libera as energias acumuladas e que podem ser extravasadas em todo o seu potencial. É andar no Nirvana sem estar morto ou percorrer o paraíso de olhos abertos vivendo a liberdade de sonhar com a alma no corpo.

               Andar pelo Nepal olhando o Himalaia desenhado ao longe, percorrer os caminhos de Lhasa, a cidade mística do Tibete, peregrinar pelos caminhos de Santiago de Compostela, vagar pelas veredas milenares da Índia, olhar os locais por onde passou Francisco de Assis ou pisar o mesmo chão onde Jesus, o Divino Pegureiro, colocou Seus pés santos e imaculados.

               São milhares os locais no mundo, impregnados de passagens belas onde os peregrinos se dessedentam com a água límpida dos mananciais divinos que ainda estão presentes nesses lugares.

 

Pontos negros:

               Da mesma maneira que existem os lugares chamados santos que evocam luminosas passagens pela Terra, existem os lugares que podemos chamar de pontos negros, onde impera a desolação, a tristeza e o infortúnio. Podemos chamar essas paragens de pontos negros, pois influenciam as pessoas a cometer desatinos e atos que não estão em acordo com a normalidade de uma pessoa bem centrada psicologicamente.

               Lugares onde as pessoas cometem suicídios ficam impregnados dos fluidos negativos gerados pelo ato insano e nefasto. Muitas vezes os Espíritos de suicidas permanecem no local do ato, rememorando os momentos finais do desesperado fato, remoendo isso por longos anos. E quando o suicídio ocorre como ato derradeiro de um drama tenso e melancólico, fica o exemplo negativo que muitos gostam de seguir.

 

Divaldo e o elevador Lacerda:

               Em Salvador, no elevador Lacerda, era muito comum pessoas cometerem suicídios, geralmente por amor não correspondido. Quando Divaldo Pereira Franco era jovem e estava atordoado com a mediunidade não desenvolvida, perturbado por entidades inimigas do bem, teve a ideia de cometer suicídio nesse local famoso de Salvador, o que seria muito interessante para o falatório do povo no outro dia. Mais um famoso suicídio que em dois ou três dias tornar-se-ia mais um suicídio esquecido.

               Divaldo não conhecia a Doutrina Espírita, estava perturbado por entidades das sombras, não sabia o que fazer com as perturbações que o afligiam.

               O interessante nesse caso de suicídio, que o Divaldo pensou executar, foi que a Espiritualidade agiu prontamente fazendo-o entender o quanto o gesto é inconsequente e terrível para o Espírito. Sua irmã, Nair, havia cometido suicídio havia alguns anos e teve a permissão de contribuir para que o Divaldo não cometesse o mesmo desatino.

               Quando Divaldo estava no alto do elevador Lacerda, pronto para se jogar ao encontro da morte, eis que aparece sua irmã Nair. A irmã apareceu de forma nítida e lhe disse para não cometer o ato impensado, pois que ela havia se suicidado por não saber que a vida continua depois da morte do corpo.

               Então Divaldo compreendeu a complexidade que envolve a morte por suicídio, pois é um ato extremo de desobediência a Deus que dá a vida para que seja vivida em plenitude e em paz.

               A partir daquele instante Divaldo passou a frequentar as sessões espíritas e compreendeu a grandiosidade que é a vida do Espírito rumo a perfeição. Essa história demonstra o que a perturbação espiritual pode fazer de mal com a pessoa. Liberto disso, Divaldo tornou-se o grande medianeiro Espírita que contribuiu muito para que o Espiritismo fosse conhecido pelos povos de muitos países.

 

Golden Gate:

               A Golden Gate continua sendo um dos lugares mais visitados no mundo e continua exercendo fascínio sobre os que têm tendências suicidas. Entidades civis estão tentando forçar as autoridades americanas a colocar grades anti-suicídio na ponte para dificultar as pessoas a tentarem o gesto fatal, mas encontram dificuldades, pois as autoridades acreditam que as grades tirarão a beleza da ponte.

               Entre a beleza da ponte e a morte das pessoas, com certeza, para eles, deve permanecer a beleza original da ponte, pois as pessoas são apenas números estatísticos que nem devem ser lembrados.

 

Luiz Marini – 10 de junho de 2012