Contestado (1912 – 2012) 100 Anos de lutas

Quarta, 22 Fevereiro 2012 15:09
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               Os problemas do passado devem ficar enterrados no passado dizem os indiferentes, que são desconhecedores que somos nós os protagonistas de todas as coisas que ocorreram no passado, que ocorrem no presente e que ocorrerão no futuro, pois somos os mesmos homens de antigamente em roupagem diferente. Como Espíritos, vivemos em diferentes épocas, com diversos corpos e carregamos em nosso íntimo as ações boas e más que fizemos.

               O que temos em comum com o Contestado? Desde o momento em que começamos a trabalhar com Maria Rosa, a heroína da Guerra, passamos a interagir com os personagens daquele tempo, encontrando-os nas regiões escuras do umbral ou em lugares luminosos da espiritualidade. 

                Os personagens daquele tempo continuam vivos colhendo os frutos do que plantaram. Os bons continuam sua labuta pelo bem e os maus ainda se engalfinham em pelejas sem fim, perseguindo, prendendo, castigando seus semelhantes. Muitos modificaram seu Espírito e trabalham na seara do Mestre Jesus enquanto outros continuam na senda do mal.

                O início da Guerra do Contestado completa 100 anos em 2012 e é importante sabermos o que aconteceu para entendermos a situação atual dos que participaram daquelas refregas.

               O cenário estava pronto desde os fins do século XIX com a ocorrência de vários problemas entre os colonos, coronéis e fazendeiros somado às divergências entre os estados do Paraná e Santa Catarina referente às suas divisas. Eram mais de 40 mil Km² de riquíssimas florestas em jogo. Numa terra tão rica havia o contraste do povo tão pobre.

               Os colonos viviam na região desde muitos anos, como posseiros da terra onde plantavam, criavam animais, colhiam pinhão, erva mate e frutos da mata o que lhes proporcionava a sobrevivência por gerações.

               No início do século XX o governo federal resolveu implantar uma ferrovia para unir os estados de São Paulo e Rio Grande do Sul, o que ocorreu entre os anos 1908 e 1910. O trajeto contemplava a união da cidade de São Paulo com Santa Maria, com a ramificação a Porto Alegre e Uruguaiana. Era o integrar para não entregar que o governo visualizava em projetos de integração das regiões brasileiras.

               A empresa Brazil Railway Company de propriedade do americano Percival Farquhar havia construído a ferrovia Madeira-Mamoré no norte do Brasil e interessou-se pela construção da estrada de ferro no sul brasileiro.

               A empresa recebeu a concessão e começou a construir a ferrovia saindo do estado de São Paulo e não encontrou obstáculos até adentrar a região do Contestado que era uma área de terras sob disputa pelos estados do Paraná e Santa Catarina.

               O governo brasileiro, pressionado pela construtora, doou 6.696 km² de terras, equivalentes a 276.694 alqueires à companhia, não pensando um segundo sequer nos habitantes da região. Armou o estopim que incendiou os ânimos dos colonos que se revoltaram e resultou na Guerra do Contestado.

               Nessa região moravam os caboclos que viviam dos recursos naturais das matas e de plantações. Se a estrada de ferro cruzasse suas terras e seguisse em frente nada aconteceria a não ser a integração dessas famílias pobres com as cidades onde poderiam vender seus produtos, valorizados, e comprar o que lhes faltasse em casa.

               Na colocação dos dormentes de madeira para assentamento dos trilhos era utilizada madeira importada da Inglaterra. Os homens da ferrovia descobriram na região do Contestado uma árvore que poderia substituir, com vantagens, a madeira importada: a imbuia.

               Também descobriram que o pinheiro fornecia uma das madeiras mais importantes para a construção de casas. Essas duas espécies existiam aos milhares na região. Para explorar a madeira a construtora exigiu, e o governo brasileiro cedeu, 15 Km de cada lado da ferrovia para a exploração do produto e a consequente colonização depois da retirada da madeira.

               Através da subsidiária Southern Brazil Lumber & Colonization Company, a Brazil Railway instalou um grande complexo madeireiro extrativo exportador e promoveu a colonização de terras concedidas ou compradas, assentando imigrantes e colonos nas áreas desmatadas.

               O governo “esqueceu”, quando cedeu às pressões da construtora, que nos trinta Km adjacentes à ferrovia havia milhares de colonos que viviam da terra.

               E começou a confusão com a implantação da Lumber, a maior indústria madeireira da América Latina, em Três Barras e Calmon. Estendendo os trilhos da ferrovia no meio da mata, utilizando guindastes gigantes derrubavam árvores centenárias e beneficiavam na serraria.

               Para explorar a área, organizaram uma milícia com mais de trezentos homens armados para expulsar os colonos. Quem obedecia e saía sem reclamar mantinha a vida. Quem desobedecia e reclamava encontrava a morte e a queima de seu rancho.

               Associado com predições messiânicas de José Maria, sucessor do monge João Maria de Agostinho, este fato concorreu para que os colonos se rebelassem e enfrentassem a situação e a milícia na base do facão e do fuzil. A isso se juntou a pendência de terras entre os dois estados e a reclamação aos governantes de que a região estava em pé de guerra por causa dos colonos revoltosos.

               Como é feito em todas as situações onde as negociações são esquecidas, e a voz do povo é abafada, mandaram um efetivo militar para enfrentar os colonos no Irani. No confronto morreram o coronel João Gualberto e o monge José Maria.

               A partir dessa refrega, acendeu-se o estopim da guerra que viria matar entre 10 mil e 20 mil combatentes e durar até o ano de 1916, quando o exército matou, na última batalha, mais de 600 colonos e incendiou mais de 5.000 casas no último reduto.

               O exército e as milícias de vaqueanos compostas por mercenários matavam não somente os guerreiros, mas também os indefesos colonos, mulheres e crianças, bem como seus animais e incendiavam seus ranchos. Cometeram toda sorte de barbárie, que foram relatadas, depois, pelos sobreviventes da guerra.

               O governo brasileiro daquela época, em vez de integrar o povo da região do Contestado com o resto do Brasil, incentivou a revolução armada com a doação das terras à companhia estrangeira. Simplesmente não ouviu a voz do povo, que é a voz de Deus, como diz o adágio popular, e cedeu às pressões de homens influentes que defendiam os interesses da companhia.

               Os amigos poderão dizer que todos eles, governantes, integrantes das forças armadas, proprietários das companhias estrangeiras, advogados que defenderam as causas dos estrangeiros junto aos governos, colonos proprietários de posse das terras, fazendeiros locais que também foram prejudicados, já passaram no tempo, morreram, e estão esquecidos em covas rasas no fundo das florestas ou nas capelas pomposas em cemitérios das grandes cidades.

               Realmente, todos os que tiveram participação nas ações que culminaram na deflagração da Guerra do Contestado já desencarnaram. Os homens podem ter influência por aqui, onde mandam prender e soltar, mas, na espiritualidade, seguem para os lugares onde está o coração: os maus vão para o umbral e trevas onde espiam os crimes cometidos e os bons seguem para as regiões de luz onde colhem os frutos sazonados da eterna fartura.

               Não podemos esquecer que os homens daquela época eram Espíritos encarnados que foram dominados pela cobiça da riqueza fácil, pelo ódio por aqueles que não aceitaram as condições impostas pelos governantes, pela insensatez dos que estupraram, torturaram e mataram os indefesos, pelas crianças, mulheres e velhos que morreram sem que soubessem a causa.

               Sendo Espíritos encarnados, com a morte do corpo, retornaram ao mundo espiritual, e continuaram vagando sem rumo pelas mesmas regiões do Contestado, perseguindo seus inimigos com o ódio extrapolado em seus corações, e, na contramão, os perseguidos e mortos injustamente, foram recolhidos para viverem na paz de suas consciências.

               A Guerra do Contestado durou quatro anos, mas as suas consequências estão ainda hoje vivas na memória daqueles que vivenciaram as ações no dia a dia das refregas.

               Na parte material, a estrada de ferro foi desativada, a companhia que a construiu faliu, a Lumber ficou no passado desde que foi nacionalizada, os governantes que autorizaram a chacina já estão todos mortos, a floresta foi dizimada, algumas cidades foram erguidas no rastro da ferrovia, mas os esquecidos dos fundões da região continuam a sobreviver a duras penas. Isso não é privilégio apenas da região do Contestado, isso ocorre em todos os lugares que não tenham expressão política que seja atuante junto às forças governamentais, como se os homens fossem diferentes por viverem em regiões isoladas.

               A grilagem de terra e exploração de madeira também ocorreu em nossa região sudoeste do estado do Paraná, desembocando na revolta dos posseiros no ano de 1957 que expulsou a Citla, empresa que obteve, em 1950, ilegalmente, um título de domínio de terras que já eram ocupadas pelos colonos. Essa revolta teve seus antecedentes na Guerra do Contestado.

               Em Francisco Beltrão e Pato Branco os colonos armados se reuniram e conseguiram anular a grilagem de terras que estava acontecendo. Felizmente o governo entendeu que os posseiros tinham razão e resolveram o caso sem que uma nova guerra fosse deflagrada.

               Nossos pais, Mario e Maria D. Marini vieram de Santa Catarina na década de 1940 e ficaram em Pato Branco algum tempo. Depois compraram alguns alqueires de terra na costa do Rio Iguaçu. Quando tinham pago a terra, foram ameaçados pelos grileiros de terras e fugiram de volta para  Pato Branco para não morrer naqueles rincões.

               Nossa família sofreu as mesmas ameaças que os colonos no tempo do Contestado. Os jagunços usavam a mesma artimanha dos vaqueanos do Contestado: Ou sai da terra ou morre. Essa era a ação dos grileiros de terra e muita gente sofreu com esses especuladores e mercenários.

 

A questão do lado espiritual

               No lado espiritual a coisa fica feia quando estudamos as consequências da Guerra do Contestado.

               São cem anos que nos separam do início da Guerra, mas esse tempo para o Espírito pode ser nada se ele não quiser se modificar e pode ser tudo se ele estiver propenso a andar pela estrada do bem.

               Quantos daqueles governantes, oficiais e comandantes, tiveram permissão para reencarnar e resgatar os males cometidos contra os pobres colonos que só desejavam continuar a viver em sua simplicidade? Quem garante que tenham retornado à Terra e melhorado suas condições? Quantos deles continuaram disseminando suas mazelas na mesma região ou em outros rincões e massacrando os povos?

               Quantos colonos assassinados friamente, esquecidos da palavra perdão, perseguiram, na espiritualidade, cruelmente seus inimigos levando-os à loucura? Quantas falanges de guerreiros continuam a vagar pelas campinas gemendo suas dores e ecoando seus gritos de dor no anoitecer?

               Quantos soldados e vaqueanos lamentam os crimes que cometeram com as mortes desnecessárias de crianças inocentes que não deixam suas lembranças e os levam à loucura? Quantas mães ainda procuram seus filhos nos grotões dos fundos das florestas? Quantos comandantes vagam pelos cerros tentando em vão apagar as lembranças das barbáries cometidas?

               Muitos personagens da Guerra ainda continuam pelos campos como desmemoriados, vagando ao léu; outros estão na experiência da carne em novas missões e em novos empreendimentos ou ainda cometendo os mesmos crimes que perpetraram naquela época; outros mais estão na espiritualidade totalmente refeitos e são hoje lúcidos trabalhadores da seara do Senhor. Uma dessas personagens se Chama Maria Rosa e hoje, usa na espiritualidade seu dom guerreiro, libertador, justo e amoroso para combater as falanges do mal que vagam, incólumes, pelas regiões do umbral e da crosta.

 

Maria Rosa

               Dentre os Espíritos que se incorporaram às falanges do bem conhecemos Maria Rosa, a grande heroína da Guerra do Contestado, quando com apenas dezesseis anos comandou mais de 6.000 homens na defesa de suas terras contra os inimigos que desejavam destruí-los a todo o custo.

               Quando a dona Maria Daminelli Marini, nossa mãe, desencarnou, em 2003, o Dr. Bezerra de Menezes pediu a ela que cuidasse de Maria Rosa em sua casa numa cidade espiritual de alto nível, pois desejava que trabalhassem juntas. Aceito o alvitre, começaram a trabalhar com diversos mentores de nosso Centro Espírita e mais de quinhentos cavaleiros da luz arregimentados entre os Espíritos dos guerreiros do Contestado que se encontravam em condições espirituais condizentes com as necessidades de se trabalhar por Jesus.

               Esses guerreiros vivem num Reduto nas proximidades da Crosta, na região sudoeste do Paraná, e sempre que necessário são convocados para proteger caravanas que seguem ao umbral e para resgatar espíritos dessas regiões que já estejam aptos a seguir por novos rumos.

               Maria Rosa é coração sensível que alcançou a liberdade espiritual no trabalho com os mentores e com Bezerra de Menezes. Ela vive numa cidade espiritual acima das turbulências do umbral junto com dona Maria Daminelli Marini. Nesses cem anos que nos separam do início da Guerra do Contestado ela trabalhou muito para se redimir de qualquer coisa que tenha feito errado e muito trabalhou pelo amor a Jesus.

               Ela é um Espírito que sempre se apresenta com muita luz. É jovem, aparentando dezesseis anos, de pele clara, de estatura mediana para alta, cabelos escuros e encaracolados. Está sempre com um sorriso angelical nos lábios e tem sempre uma palavra de conforto e de amor para quem a procura. É um Espírito que está buscando, no trabalho com Jesus, semear a felicidade em toda a parte. Ela é preparada para enfrentar os Espíritos malévolos que habitam as regiões do umbral e das trevas e resgatar os Espíritos sofredores que já têm a possibilidade de serem levados para lugares melhores.

               Maria Rosa tem nos contado as histórias de suas andanças na espiritualidade junto com a avó Maria, a senhora Maria, Luisinho, Luiz Dam, Francisca Roberta e os mentores que trabalham em nosso Centro Espírita sob as ordens do Dr. Bezerra de Menezes. Essas narrativas estão sendo compiladas em livros e deverão estar à disposição dos amigos brevemente.

               A região do Contestado abriga hoje milhares daqueles Espíritos que desencarnaram durante a Guerra. Muitos estão encarnados resgatando os crimes cometidos, outros estão desenvolvendo ações beneméritas e muitos carregam no corpo e no Espírito as marcas visíveis daquele tempo.

               Os Espíritos que conseguiram se livrar dos estigmas da Guerra alçaram vôos mais altos e estão trabalhando com os mensageiros de Jesus, colaborando na implantação de Seu Evangelho na Terra.

               Por meio das descrições que Maria Rosa nos tem repassado, temos conhecimento da situação e das condições espirituais em que se encontram muitos dos que participaram da guerra de 1912, afinal, para o Espírito, que é eterno, cem anos é como se fosse um dia.

 

Luiz Marini 12-02-2012