04 – Os afilhados da avó Maria

Quarta, 25 Março 2020 16:50
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Nesse momento chegou André, um amigo espiritual muito especial, que aparece todas as manhãs para cumprimentar a avó Maria. Disse-nos um “bom dia” tão esfuziante que tivemos que sorrir pela maneira com que nos cumprimentou.

- Bom dia! - Respondemos – E abraçamo-nos com muito carinho. André é um dos melhores amigos da avó Maria e trabalha na supervisão da Casa Remanso de Luz que a avó administra. Essa escola trabalha na educação de crianças, preparando-as para a vida e para o reencarne.

Também faço minha parte na referida casa, mas não trabalho em tempo integral como o André e a avó, pois tenho afazeres diferentes em outros campos de luta.

Meu trabalho está ligado ao resgate de Espíritos que permanecem no umbral, na proteção aos trabalhadores que descem as encostas, na formação de novos companheiros de luta, na vigilância e administração de casas e terras onde temos atividades na educação de Espíritos, e, em todos os lugares onde exista problema para ser sanado, que esteja a minha altura, e que me chamem, compareço.

As crianças que moram conosco, Luisinho, Julia e Lucas já estavam prontas para seguir com André até a escola. Eles são Espíritos preparados para auxiliar na condução das atividades da escola e fazem isso com muita dedicação.

André e as crianças despediram-se, atravessaram o jardim florido e seguiram pela estrada rumo à Casa Remanso de Luz. Com a  avó Maria, iríamos mais tarde, pois estávamos esperando dois Espíritos que haviam chegado à noite anterior e que estavam na cidade, na casa de parentes.

Perto das 09 horas vislumbramos dois Espíritos que vinham pela alameda. Eles se aproximaram entrando na estrada principal e chegaram à nossa casa. Eram dois jovens aparentando vinte e três anos. Eram altos e morenos, com olhos também escuros.

Eram nossos conhecidos de longa data. Depois dos cumprimentos usuais, a avó Maria convidou-os a sentar conosco. Os jovens eram afilhados da avó Maria, filhos de uma comadre que a avó teve na terra.

O mais velho se chamava Pedro e estava vestido da maneira tradicional dos moradores da região paranaense: calça preta, camisa branca, sapatos pretos. Na cabeça, chapéu branco. O mais novo, de nome Gilberto, trajava calça jeans, camisa cinza e sapatos pretos.

- O que aconteceu meus amigos? – perguntei incentivando-os à conversa.

- Avó Maria, Maria Rosa - falou Pedro -, não estamos aqui a passeio como já o fizemos muitas vezes. Uma das coisas mais formosas que temos na espiritualidade é poder visitar os amigos e compartilhar novas oportunidades de trabalho e lazer.

Pedro parou por um instante, aspirando o ar fresco da manhã, e continuou:

- A senhora sabe madrinha, que somos muito novos no trabalho e que muito devemos do entusiasmo que temos à acolhida que sempre tivemos em sua casa. Quando participamos de um trabalho igual ao que a senhora realiza, nos sentimos forte o bastante para lutarmos onde estivermos para também, um dia, alcançar o mesmo estágio de desenvolvimento.

- Viemos pedir ajuda para um caso que está bastante intrigante em nossa cidade. Vocês sabem que nosso recanto espiritual, apesar de estar muito próximo ao umbral, até então, tinha muita proteção e nunca havia sido atacado por malfeitores, a não ser casos esporádicos ocorridos com alguns Espíritos que chegavam aos portões querendo adentrar a qualquer custo para causar problemas.

- Acontece que alguns Espíritos educandos da cidade tiveram permissão para visitar parentes que ainda se encontram na Terra e, quando voltaram, apresentaram comportamento modificado por ideias inferiores. Eles conseguiram insuflar aos companheiros de jornada nos núcleos de trabalho o pensamento de auxiliar as falanges inferiores que desejavam se apoderar da cidade.

- Na verdade – aparteei com decisão –, a cidade sempre foi alvo dos inimigos do bem. Os Espíritos voltados ao mal não compreendem que ali permanecem aqueles que já estão em estágio de progresso e melhoria espiritual. Sentem ciúme porisso, e, querem destruir o que é fruto do amor de Jesus.

- Quando aconteceram esses fatos? - perguntei ao amigo.

- Há cerca de duas semanas que ocorrem os problemas. A ideia principal semeada entre eles foi de que nós estávamos escravizando-os e não os tornando trabalhadores em educação e reconstrução de seus caminhos. 

- Esses trabalhadores revoltosos conseguiram tomar a casa de força e desligaram as baterias de energia. Com isso a fortaleza ficou sem proteção e, numa noite, alguns Espíritos, armados, vindos do umbral conseguiram subir pela muralha, adentraram a cidade e capturaram três núcleos de desenvolvimento.

- Desde então as falanges provindas do umbral estão atacando a cidade com espadas, lanças, flechas, aríetes e outras armas de guerra.

- Como é que vocês conseguiram fugir e chegar até aqui? – perguntei aos amigos.

Escalamos as montanhas e saímos quando era a noite. Viemos por estradas vicinais até que pudessemos prosseguir pela estrada principal.

- Quantos inimigos estão por lá? – Insisti, interressada.

- Acreditamos que perto de três mil Espíritos estão acampados no campo em frente à cidade. O clima está fervendo e se nada for feito, imediatamente, poderemos perder o controle da cidade em poucos dias. Temos também um problema com uma caravana desaparecida.

- Conte-nos o caso da caravana. – Pedi ao amigo.

- Geralmente as caravanas partem da cidade quando existe a necessidade de se viajar a outros lugares. São tomados cuidados especiais para que não ocorram problemas. Guardas armados são designados para a proteção das caravanas. Houve falha desta vez, pois, havia longo tempo os Espíritos que habitam o umbral não se aproximavam das caravanas. Essa saiu com apenas três guardas devido a calmaria que reinava na região. Dias depois ficamos sabendo que os seus integrantes haviam sido raptados e conduzidos à cidade no umbral que fica a cerca de quinze quilômetros das limitações com nosso plano. Por isso, o administrador pediu que viéssemos pedir auxílio urgente para essa situação. As comunicações com o exterior ficaram danificadas e fora de alcance e, somente revivendo os tempos dos mensageiros, é que conseguimos chegar até aqui. - O moço calou-se, constrangido, após a explicação.

- Quantas pessoas integravam a caravana? - Perguntei.

- Estavam na caravana dez rapazes e oito moças, além dos três guardas. Estavam seguindo pela estrada até uma cidade distante setenta quilômetros para um estágio na área de educação de aprendizes.

- Uma das moças que estavam na caravana é Angelica, filha de seu José, o administrador da cidade, e noiva de Pedro – esclareceu João.

Nesse momento a avó Maria pediu licença e dirigiu-se para o interior da casa. Depois de alguns minutos retornou e nos disse:

- O Dr. Bezerra nos pede que cuidemos do caso. Ele se encontra em trabalho em regiões longínquas, mas cuidará do episódio entrando em sintonia contínua conosco. Maria Rosa está convocada a reunir os seus cavaleiros e marchar até a cidade para resolver o problema. Se precisar poderá pedir auxílio aos nossos amigos comandantes dos exércitos.

A avó Maria olhou-me e falou com firmeza:

- Com certeza você dará conta do recado.

Eu conhecia bem a região, pois estou sempre em andanças por ali. O umbral começa realmente numa distância de quinze quilômetros da cidade. É o umbral que denominamos fino por ser menos denso. Mas os Espíritos que habitam a região umbralina são ladinos e reniram-se para atacar a cidade. Devemos descobrir quem é que está arregimentando os grupos de ataque e a causa principal disso.

A região do umbral é habitada por malfeitores de toda sorte e estirpe que viveram na Terra e soldados oriundos das guerras do Paraguai, dos Farrapos, do Contestado, entre outras. Ainda vivem com a mente ligada no tempo dessas guerras e quando têm a oportunidade de guerrear estão sempre prontos.

O serviço necessitava ser iniciado o quanto antes, por isso despedi-me dos jovens, abracei a avó Maria e lhe disse que podia ficar sossegada que estaríamos em serviço a partir daquele momento. Pedi que ela ficasse em alerta, em contato comigo, e ajudasse no que fosse necessário.

Com seu jeito meigo e franco a avó me disse que não faltaria prece e proteção dos mentores espirituais na empreitada.

Com muita confiança em Deus, pus-me a caminho, volitando, até nossa cidadela onde permanecem nossos companheiros de luta, oriundos da Guerra do Contestado.

Continuar...