CAPÍTULO 13: Viagem

Sexta, 21 Setembro 2012 11:35
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CAPÍTULO 13
 
 
 
           Viagem                               

 
                                   Os empregados do armazém vão levar
                         mantimentos para uma fazenda.



               Dois meses depois um caminhão de aluguel chegou de Curitiba para trazer mercadorias da capital para alguns armazéns da cidade. Ao entardecer encostou nos fundos do depósito para descarregar a última entrega da carga.
               Seu Medeiros recebeu os produtos e pediu ao caminhoneiro se havia a possibilidade de fazer um frete até uma cidadezinha distante oitenta quilômetros para entregar alguns produtos e trazer outros necessários ao armazém. O motorista aquiesceu ao pedido, pois era velho conhecido do bodegueiro e marcou a viagem para a manhã seguinte.
               Antonio, José, Pedro e o motorista se aboletaram na cabine do caminhão e saíram cedo, quando o dia estava amanhecendo. A estrada de terra estava empoeirada devido à falta de chuva e isso denunciava o veículo a longa distância.
               Quinze quilômetros rodados e José comentou com Antonio que a fazenda, à esquerda, pertencia a um irmão de Altair, o fazendeiro que mantinha muitos jagunços a seu comando, e onde estava passando alguns dias seu filho, Otávio, o moço que havia comprado a sela e alguns apetrechos no armazém de seu pai.
               Antonio ficou observando a fazenda enquanto o caminhão rodava pela estrada. Quando se aproximaram da sede, que distava cem metros da estrada, viu que Otávio estava no alpendre conversando com algumas pessoas.
               Logo a sede da fazenda sumiu de sua visão e Antonio se sentiu impotente para pensar em o que fazer na vida. Estava recuperando as lembranças gradativamente, mas, por dentro, sentia mágoas profundas dos homens que assassinaram sua família. Procurou pensar em outras coisas para esquecer as desditas. Pediu a José e Pedro, que conheciam bem a região, que contassem algumas coisas acerca dos locais por onde passavam.
               ― Essas terras foram colonizadas a partir do fim do século passado e início deste – Pedro começou a contar. – Os colonos chegavam do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina, principalmente da região do Contestado, que foi disputada por Santa Catarina e Paraná e abrangia desde a Argentina até Porto União, descendo até Campos Novos e a divisa com o Rio Grande do Sul. Depois da Guerra do Contestado muita gente veio para cá em busca de futuro, mas com os colonos também chegaram os fazendeiros que traziam consigo os jagunços para expulsá-los e tomar suas terras. Essa grilagem de terras continua até hoje e tem matado muita gente inocente.
               ― Contam que estão fazendo os colonos assinar papéis que dizem serem escrituras verdadeiras, mas que na verdade nada valem – aparteou José. – Somados à violência dos jagunços, esses fatos estão mobilizando os colonos para a revolta que deve acontecer quando menos se espera.
               ―  As Companhias de terras estão ficando ricas apossando-se de glebas cedidas pelo governo para o assentamento de colonos – comentou Pedro. – Muitas estão vendendo duas ou três vezes a mesma terra para pessoas diferentes. A situação está ficando perigosa e é bom ficarmos de olhos bem abertos.
               O caminhão subiu um morro e quando alcançou a planície foi cercado por diversos cavaleiros que eram jagunços. Estavam armados e fizeram sinal para o motorista parar o caminhão. Pediram para onde iam e o que carregavam. Cobraram pedágio para passar na estrada. O motorista entregou algumas cédulas de dinheiro a um dos jagunços e foi autorizado a seguir viagem.
               Vinte quilômetros antes de chegar à cidade onde iam descarregar os produtos, passaram pela fazenda imensa de Altair, e Pedro contou o fato de ser ele um dos maiores fazendeiros da região e que tomava as terras dos vizinhos na base da bala e dos jagunços.
               Antonio viu o sítio que lhe pertencera e que foi arrebatado pelo fazendeiro à custa da morte de sua família. O rancho havia sido desmanchado e tudo era apenas capim e gado incorporados na vastidão dos campos. O coração sangrava, mas ele não podia deixar transparecer a agonia aos amigos. Tinha que fazer de conta que estava tudo bem e que nada havia acontecido com ele naquele lugar.
                
Continuar...