CAPÍTULO 8: O andarilho

Sexta, 21 Setembro 2012 11:40
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CAPÍTULO 8
 
 
 
      O andarilho                 

 
                                         Treze anos depois Antonio chega a Pato 
                                       Branco como um andarilho sem destino.



               Em 1956 as cidades estavam florescendo em meio ao desbravamento que havia sido realizado algumas décadas antes. O fluxo de imigrantes ainda era grande, pois o sudoeste era inexplorado em muitas atividades comerciais e isso chamava os possíveis investidores a fincar raízes na região.
               Ainda havia muito pinheiro a derrubar e as serrarias continuavam a beneficiar a madeira em larga escala para vender em diversos estados do país. A grilagem de terras continuava forte no interior e quem mandava mais conseguia a posse de terrenos cobertos por Araucárias centenárias.
               Os jagunços da fazenda de Altair, lá para as bandas do rio Iguaçu, continuavam espalhando o terror no sertão, expulsando os colonos, apossando-se de suas terras, e, quando necessário, matando quem os enfrentassem.
               Essa era a situação na região e, nos fundões das propriedades, muita coisa acontecia sem que as autoridades soubessem. Muita gente desaparecia do dia para a noite sem que qualquer coisa fosse feita para descobrir o que havia acontecido com o fulano de tal.
               Quem observasse mais atentamente notaria a tristeza que havia na alma daquele personagem que vagava pelas cidadezinhas do interior paranaense. O homem maltrapilho pedia esmolas pelas ruas esburacadas e poeirentas dos lugarejos para conseguir alguma coisa para comer e vestir. Os transeuntes de bom coração paravam e alcançavam algumas moedas para comprar o pão e mitigar sua fome. Magro, de estatura mediana, moreno, aparentando quarenta e poucos anos, parecia um pouco fora de si, por não ter os pensamentos e ideias alinhadas.
              Ao anoitecer ele se recolhia em algum rancho abandonado na periferia da vila e dormia encolhido sobre alguns cobertores velhos que conseguira nas casas mais abastadas. 
               Sua alimentação era algum pouco de comida que alguma alma boa lhe oferecia num pote que acondicionara margarina. O personagem que vagava pelas ruas, como anônimo pedinte, era Antonio, o pai que vira a esposa e as filhas assassinadas pelo bando de Altair. Depois do massacre de sua família ficou desmemoriado e passou a vagar pelas cidades, amargando as lembranças daquela madrugada.
               Seus algozes tinham razão quando disseram que ele haveria de vagar pelo mundo, sem destino, e morreria demente, recordando a cada hora o olhar de seus familiares pedindo para não serem mortos.
               Essas lembranças infundiram em sua mente o desespero que levou à depressão profunda e, do buraco em que se encontrava, não havia como escapar. A tristeza dominava sua alma e ele não conseguia pensar direito no que devia fazer para melhorar e sair daquela situação.
               Antonio havia fugido da região próxima ao rio Iguaçu, onde a sua família havia sido assassinada, e viajou, de carona, aboletado nas carroças e caminhões que rodavam a região, acabando por se arranchar em Pato Branco, uma cidade do sudoeste do Paraná, que começava a despontar para o desenvolvimento, onde encontrara algumas almas boas que o auxiliavam doando-lhe roupas e comida.
               Depois de algum tempo aumentou a cota diária de bebida para esquecer a tragédia e virou chacota dos mal intencionados cidadãos que adoravam perturbá-lo, principalmente quando cambaleava pelas ruas, na mais profunda perturbação.
               Os anos haviam se passado e Antonio continuava na rotina de levantar cedo, deixar o abrigo paupérrimo e vagar pelas ruas em busca do alimento diário e das moedas para comprar a cachaça na bodega de seu Medeiros, que ficava para o lado norte da cidade, nas proximidades da estrada que conduzia a Verê e ao rio Iguaçu.
               Os dias continuavam se arrastando pela vida amargurada de Antonio e ele continuava no mesmo rancho abandonado, nas mesmas ruas empoeiradas, pedindo nas mesmas casas, nas mesmas esquinas e bebendo a cachaça, no fim de tarde, na mesma bodega.     
 
Continuar...