Centro Espírita Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

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Almas afins - Áquila e Prisca - Parte II

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<< Parte I

05 - Oásis de Dan

 Coberto por árvores frondosas e palmeiras verdejantes, tendo uma grama rala e vegetação rasteira, com poços e água abundante, o oásis representava para a região um local de descanso para as caravanas que demandavam o deserto em busca de outros lugarejos ou cidades prósperas.

As tendas que serviam de abrigo para o casal que ali morava eram bem feitas e estavam protegidas do sol inclemente sob árvores altas e frondosas. Neste local agradável Saulo de Tarso conhece Áquila e Prisca (Priscila), que ficariam marcados para sempre em seu coração.

Eram um casal harmonioso, se respeitavam em seus pontos de vista. Possuíam idéias muito parecidas principalmente porque seguiam juntos os ideais do Cristo Jesus. Buscavam cumprir os deveres assumidos. Tinham o ideal de fazer o bem aos outros. Eram felizes com o pouco que tinham, o que para eles era muito. Muito jovens e dotados de alegria interior que transparecia em suas expressões faciais.

Trabalhavam na preparação de tapetes de lã e de tecidos resistentes de pêlo caprino para barracas de viagem.

Estavam há cerca de um mês no oásis e pretendiam permanecer no lugar por três anos. Eram os únicos habitantes do lugar.

Ali, na solidão do deserto, onde os ventos cantam alvíssaras ao Deus do mundo, encontraram a paz que necessitavam para os seus espíritos.

Durante esse tempo estiveram sozinhos trabalhando sob as bênçãos dos céus, felizes como nunca, pois podiam encontrar em seu intimo a paz e a soledade que tanto almejavam.

Prisca era uma moça linda e bastante carinhosa que gostava de entoar canções hebraicas, enquanto trabalhava no silencio do deserto. Tanto cuidava dos deveres de casa quanto ajudava o marido nas funções do tear.

Áquila e Prisca estavam com a pele enegrecida pelo sol e o vento causticante e apresentavam feições típicas dos habitantes do deserto.

 

06 - Saulo, Áquila e Prisca

A primeira caravana que passou pelo local, vindo de Palmira, deixou um homem aparentando trinta anos, com seus apetrechos de trabalho, sob as árvores frondosas. Foram ao encontro do novo companheiro saudando-o, felizes, por terem companhia para o trabalho de artesão.

Saulo logo se afeiçoou aos dois novos companheiros.

No entardecer do primeiro dia em que ali se encontrava, viu que os dois, no descanso depois da labuta, se punham a ler e a comentar alguma coisa sobre um novo Messias. Saulo olhou e viu o nome de Jesus inserto em um desses escritos o que o levou a entabular a conversação sobre Jesus...

Saulo não contou aos novos amigos que era o temível doutor da Lei, agora transformado em humilde servidor de Jesus. Achou melhor deixar que o tempo apagasse a sua imagem de déspota e inimigo feroz dos cristãos.

Enquanto trabalhavam no difícil serviço de tear, avaliavam a melhor maneira de expor ao mundo a doutrina do Excelso Amigo. Ponderavam as dificuldades que encontrariam neste desiderato. Mas estavam imbuídos das melhores intenções e encontrariam forças para lograr êxito na tarefa a que se propunham. Analisavam as escrituras e as comparavam com os escritos de Levi, descobrindo novos argumentos que pudessem comprovar que Jesus era de fato o Cristo esperado pelos israelitas.

O ex-doutor da Lei, depois de alguns meses, perguntou ao casal o que fariam se encontrassem Saulo de Tarso, o inimigo número um dos cristãos.
Responderam que o perdoariam por que isso era o que Simão Pedro ensinava na casa do Caminho. Que perdoassem os seus inimigos, que orassem por eles. Também Saulo era digno de perdão.

Saulo encorajou-se e falou que eles estavam diante do antigo perseguidor dos homens do Caminho. Ele, agora um rude tecelão, era o mesmo Saulo de Tarso que tantos males causou aos seguidores da Igreja do Caminho.

Narrou a sua trajetória e o encontro que teve com Jesus às portas de Damasco.

Áquila e Prisca compreenderam que era o momento de perdoar o mal que Saulo fizera aos seus companheiros de luta e também por que já havia demonstrado que se tornara digno de confiança e fizera com eles a amizade mais sincera que se pode almejar.

Desde então entabularam sonhos de poder andar pelo mundo para pregar a palavra de Jesus, estabelecendo diretrizes concretas de ação para convencer as pessoas, a partir de dois fatos: A ressurreição do Cristo, depois do espetáculo hediondo da cruz, e da aparição a Saulo de Tarso em Damasco.

Esse episódio ocorrido com Saulo viria fortalecer a convicção de que a fé é um instrumento importante de trabalho e, esse fato mesclado com a imagem de Jesus ressuscitado, fez com que o Cristo Jesus permanecesse sempre vivo nos corações dos seus discípulos.

 

7 - Prisca

Prisca é o diminutivo de Priscila. Ela morava em Palmira, cidade situada no noroeste de Damasco, e que regurgitava de estrangeiros advindos de todos os recantos do mundo conhecido, porque a sua situação estratégica lhe dava essa possibilidade. Ficava a cerca de 210 km da cidade de Damasco, e a mais ou menos a mesma distancia do rio Eufrates. Era parada obrigatória das caravanas que seguiam essa rota comercial.

Priscila tinha apenas oito anos e já era órfã. Agradecia a bondade da esposa de Ezequias que lhe havia convidado para morar em sua casa para que pudesse ter um lar e pais substitutos.

Mesmo com a idade própria para apenas brincar, assumiu os encargos de serva da casa, auxiliando em todas as tarefas que podia. Assim, cresceu sob a tutela de duas pessoas de alto apreço que lhe deram a guarida necessária que as adolescentes de sua estirpe necessitavam.

Judia, seguia os preceitos de Moisés e da Lei, seguindo todas as semanas até a sinagoga para aprender com os doutores a palavra de Deus. Cresceu tendo dentro de si a noção de responsabilidade que deve nortear as pessoas de bem.

Era inteligente, vivaz, e estava sempre pronta para fazer toda sorte de serviço ou tarefa. Era a filha adorada que o coração de seus tutores sempre almejou.

 

08 - Áquila

Áquila nasceu no Ponto e também era judeu. Desde cedo aprendeu a profissão de tecelão e desempenhou sempre a tarefa com dignidade e grande esforço, o que é próprio dos espíritos disciplinados que vêm à Terra para cumprir missão especial.

Quando jovem, obedecendo aos desejos que norteava a maioria dos judeus quis conhecer a cidade santa. Foi morar em Jerusalém, onde trabalhava em sua oficina de tear. Seu pai, viúvo, morava com ele e Prisca. O pai instalou uma padaria na cidade e estava indo bem em seus negócios.

Para desenvolver a atividade cristã, como um dos baluartes do cristianismo nascente tinha que ser um homem de grandes qualidades morais e espirituais.

 

09 - Áquila e Prisca almas afins

As almas afins podem nascer distanciadas, separadas por mares e terras infindas, nos confins do mundo, mas possuem em seu interior alguns elementos de espiritualidade que os atraem, que os puxam para um determinado lugar onde deve ocorrer o reencontro programado pelas entidades espirituais. Assim aconteceu com esses dois espíritos que certo dia tiveram a oportunidade de sentir seus olhos se cruzarem e palpitar o coração em disparada. Estava ajeitado o reencontro e o conseqüente reinício de suas atividades em parceria, o que faziam há milênios.

Áquila e Prisca eram dois espíritos de fibra que haviam sido temperados no aço forjado no amor divino oriundo das oficinas da eternidade. Eram caminheiros do bem que viviam com o coração sempre em conformidade com Deus. Exemplo vivo de quem procura e encontra a luz nas regiões sublimes onde impera a felicidade. Incansáveis obreiros da vida eterna a percorrer os caminhos aspérrimos da dor e das sombras no ambiente terrestre. Figuras ímpares que denotam a bondade divina a espargir luminosidade por onde passam. Apóstolos do bem que nos servem de arquétipo para suprir nossa ansiedade na busca do caminho para a felicidade eterna.

 

10 - Áquila e Prisca o encontro

As estrelas ainda brilhavam no céu, salpicando de luzes a abóbada celeste, contrastando com a escuridão que ainda teimava em reinar na região do Ponto.

Um vulto movia-se na estrada solitária, quando os primeiros raios de sol começaram a clarear o firmamento. Era um típico habitante da região próxima do Mar Negro, vestido com roupas apropriadas para enfrentar as baixas temperaturas da noite e o sol abrasador do dia. Montado em seu camelo, seguia viagem lentamente, rumo ao sul, acompanhando as paisagens escarpadas dos morros e montanhas ao largo.

Quando o sol do meio dia abrasava sua cabeça, desmontava e sentava-se à sombra de um coqueiro para o devido descanso. Em seguida retomava a jornada em busca da cidade santa de Jerusalém. Passou por áreas desertas onde se via apenas areia na vastidão do horizonte.

A jornada era de aproximadamente 800 km entre sua cidade natal e a capital da Judéia. Em poucos dias chegou a Melitene e depois a Edessa, cidades onde descansou, para novamente enfrentar as vicissitudes do caminho.

Para chegar a Damasco deliberou encarar o deserto unindo-se a uma caravana de beduínos que se dispunha a alcançar primeiramente a cidade de Palmira.

Em poucos dias estavam adentrando a cidade onde permaneceriam durante algum tempo, até refazerem as forças, e então enfrentar novamente o deserto até Damasco.

O jovem resolveu sair do acampamento para conhecer a cidade de Palmira. Caminhou por diversas vielas até atingir a rua principal onde havia comércios de todos os tipos, com vendedores gritando e forçando a venda de seus produtos. Perambulou até encontrar um comércio de tendas dos mais variados tipos e cores. Desejou olhar os produtos ofertados pensando na possibilidade de adquirir algum para utilizar no restante da viagem.

Adentrou a loja e viu que estava abarrotada de produtos de uso típico dos habitantes do deserto.

Enquanto observava os produtos aproximou-se do balcão. Deparou-se com uma bela jovem que o olhava fixamente. Seus olhares se cruzaram num átimo de tempo e seus corações sentiram um baque surdo a sufocar por dentro, lá no fundo.

O jovem encorajou-se e pediu o preço de uma tenda para a moça. Entabularam conversa e sentiram a simpatia universal que unem aqueles que se procuram pelo mundo como almas afins.

Logo estava identificado o moço. Chamava-se Áquila. Era judeu do Ponto e estava seguindo para Jerusalém. Era artesão com boa prática. Ela se chamava Prisca e morava com os donos do comércio.

Quando chegou Ezequias, o proprietário, sabendo que o jovem era artesão ofereceu serviço na sua fabrica de teares.

Em poucos meses o jovem Áquila estava estabelecido na cidade e se consorciava com Prisca. Depois de um período de um ano de trabalho no comércio do senhor Ezequias, o jovem casal resolveu seguir a Jerusalém, dando asas ao desejo de conhecer a cidade santa.

 

11- Jerusalém

Áquila chegara a Jerusalém com a consorte Prisca e logo procuraram a Igreja do “Caminho” que era dirigida por Simão Pedro em busca da cura de males que o jovem sofria desde a infância.

A Casa do Caminho estava ainda começando o seu trabalho de divulgação do evangelho de Jesus.  O apóstolo da Galiléia curou o tecelão de seus males e tanto foi o carinho com que tratou o casal que os dois começaram a freqüentar a igreja com muita assiduidade, tornando-se logo dois colaboradores das atividades crescentes da casa de caridade.

As atividades transcorriam normalmente enquanto Áquila e Prisca cuidavam do tear durante o dia e trabalhavam com Simão Pedro e outros apóstolos durante parte da noite atendendo enfermos e explanando o evangelho do Cristo.

Nesse ritmo de trabalho aprendiam e ensinavam, conheciam e auxiliavam, criando no espírito a fortaleza necessária para suportar as vergastas do mal que está sempre a postos para perseguir os caminheiros do amor e da luz.

Quando começaram as perseguições de Saulo de Tarso aos cristãos em Jerusalém, Áquila e Prisca acompanharam apreensivos o desenrolar dos fatos que culminaram com a morte de Estevão.

A partir daí, a Casa do Caminho e os seus seguidores começaram a ser perseguidos de uma maneira cruel e desumana. Dezenas de asseclas de Saulo de Tarso se infiltravam nos grupos de seguidores do Cristo para delação e conseqüente confisco de seus bens, o que lhes era apropriado, pois assim conseguiam aumentar a sua riqueza.

Assim ocorreu com a família de Áquila. Um patrício de nome Jochaí, desejava comprar a padaria de seu pai e o velho viúvo não pretendia vendê-la porque não queria de desfazer de seu ganha-pão. Matreiro, Jochaí apareceu certa manhã com uma escolta armada e prendeu os três, conduzindo-os à prisão. Áquila e Prisca foram soltos, mas o velho padeiro foi supliciado até quase a morte e só o devolveram à família para que morresse sob os olhares dos familiares. Seus bens foram confiscados.

As perseguições aos cristãos estavam se acentuando e o cerco se tornava cada vez mais apertado em Jerusalém.

Gamaliel é convidado por Simão Pedro a visitar a Igreja do Caminho. O ex-pescador de Cafarnaum presenteia o doutor da Lei com escritos de Levi, que eram os esboços de seu evangelho.

O ancião fica impressionado com o trabalho desenvolvido pelos cristãos em atendimento aos pobres que procuram a casa. Gamaliel tinha um coração muito puro e teria oportunidade de provar isso.

Saulo de Tarso continua a sanha de perseguir os seguidores do Cristo e manda prender Pedro, João e Filipe. Tiago não é preso por seguir os ritos em conformidade com a Lei de Moisés. Outras prisões acontecem por toda a cidade que está em polvorosa.

Mas eis que à noite um anjo do Senhor abriu as portas da prisão, e, tirando-os para fora, lhes disse: -“ide e apresentai-vos no templo, e dizei ao povo todas as palavras desta vida”.

E os apóstolos obedeceram ao espírito e no dia seguinte pregavam no templo a palavra do Senhor.

O sumo sacerdote e os anciãos do templo mandaram buscar os presos para interrogá-los. Voltaram com a notícia de que eles não se encontravam na prisão e estavam pregando ali mesmo no templo. Trouxeram-nos sem violência e os advertiram que não deveriam pregar em nome “desse homem”.

Pedro respondeu que - “mais importa obedecer a Deus do que aos homens”. “O Deus de nossos pais ressuscitou a Jesus, ao qual vós matastes, suspendendo-o no madeiro”.

Os judeus se enfureceram com tamanha audácia que Pedro apresentava e deliberaram matá-los.

Foi quando se levantou Gamaliel, que era venerado por todo o povo, e mandou que levassem os apóstolos para fora do recinto. Então disse aos seus pares:

-“Acautelai-vos a respeito do que haveis de fazer a estes homens. Porque se levantou Teudas, depois Judas, o Galileu, e levaram muito povo após si e pereceram”. 

Agora digo-vos:

-“Daí de mão a estes homens, e deixai-os, porque, se este conselho ou esta obra é de homens, se desfará. Mas, se é de Deus, não podereis desfazê-la. Para que não aconteça serdes também achados combatendo contra Deus”.

Concordaram com Gamaliel, devido ao medo que tinham de Deus, e depois de açoitar os apóstolos, libertaram-nos, mandando que não falassem no nome de Jesus, e os deixaram ir.

Mas os apóstolos não obedeceram as ordens e todos os dias no templo e nas casas não cessavam de ensinar e de anunciar a Jesus Cristo.
As perseguições recrudesceram e a mando de Saulo de Tarso, depois do apedrejamento de Estevão, os homens do caminho foram expulsos da cidade, exceto os apóstolos. Assolavam a Igreja, entrando pelas casas, arrastando homens e mulheres, os encerravam na prisão.

João, o apóstolo amado de Jesus, é banido de Jerusalém. Nesse clima hediondo não havia a menor possibilidade de se permanecer na cidade chamada santa, mas que estava povoada de demônios e seus sequazes, que tentavam a todo o custo destruir a nova luz que se instalava no mundo.

Parte III >>

 

Luiz Marini - Livros

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Para refletir

"Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes." (Gilbert Keith Chesterton)