Centro Espírita Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

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12 – No meio dos inimigos

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Quando o sol desapareceu no horizonte trazendo a calmaria dolente ao coração que sente a natureza, começamos a nos preparar para a jornada. Indiquei cinco companheiros para nossa empreitada. Vestimos roupas masculinas parecidas com as dos invasores. Para esconder os cabelos compridos, usei um chapéu grande por sobre o coque. Parecia um jovem imberbe em busca de glória.

Saímos do acampamento e seguimos pela estrada principal. Levávamos apenas a espada e um punhal na cintura. Já começava a escurecer quando atingimos pequena elevação de onde podíamos ver o acampamento dos guerrilheiros. A azáfama era grande no vai e vem dos guerreiros em busca de informações e de levar armamentos aos companheiros.

Em pouco diferia dos acampamentos que montávamos quando de nossa Guerra do Contestado. A diferença estava em que naquele tempo, lutávamos por um ideal: a manutenção de nossas terras; e os bandidos do astral inferior lutam por dominação e quebra da hegemonia espiritual referente ao bem que deve imperar no além.

Nada de mais que não se faça pelo bem, quando a razão está presente em nossas mãos. Duelar pelo bem nos edifica o coração. Com certeza não podemos deixar que malfeitores destruam o trabalho efetivado ao longo de anos na recuperação de Espíritos que desejam renovar os seus caminhos.

Caminhamos por cerca de vinte minutos até chegarmos aos primeiros guardas do acampamento. Passamos sem que fôssemos perturbados. Em poucos minutos estávamos andando entre os celerados.

As fogueiras se multiplicavam em grande número e os gritos e imprecações enchiam o ambiente pesado. A grande maioria era formada por Espíritos de aspecto vicioso e rude. Em meio ao grande número de homens estavam dezenas de mulheres, das quais muitas também eram guerreiras. Muitos estavam comendo e bebendo, enquanto outros descansavam, deitados sobre panos velhos. Os grupos se dispersavam entre as tendas e quando estávamos passando, alguém nos chamou:

- Venham comer e beber conosco.

Olhei os que nos chamavam e respondi com firmeza:

- Não podemos ficar. Temos ordens a cumprir e não temos tempo para isso. Acenamos em agradecimento e seguimos em frente.

Caminhamos entre os diversos grupos até chegarmos no centro do acampamento onde estavam os comandantes do exército. Ficamos entre as tendas, calados, observando os acontecimentos se desenrolarem.

Depois de meia hora, ouvimos um clarim soar em chamamento. Os guerreiros seguiram para um descampado em frente às tendas principais dos comandantes. Também nós seguimos para o local, atentos para o que deveria acontecer.

Em cinco minutos surgiu de uma tenda um homem alto e forte. Vestia-se como general. Com passos firmes caminhou até uma mesa, onde subiu. Com a mão fez sinal pedindo silêncio aos guerreiros.

Fora um comandante dos exércitos romanos e depois em outra encarnação também obteve o mesmo posto dos turcos otomanos. Por último, reencarnara no Brasil onde fora general. Apresentava feições brasileiras com leves toques orientais, com olhos levemente amendoados e cabelos negros, compridos até os ombros. A barba era negra com mais ou menos dois centímetros de comprimento. Todos os guerreiros calaram-se perante a força enigmática do general. Chamava-se Marcos e denotava grande poder de comando.

O acampamento contava com mais de três mil soldados que haviam sido arregimentados das mais diversas formas e que compareceram dos mais variados locais. Todos estavam imbuídos do desejo de derrubar os portões e dominar a cidade. Com certeza seriam vencedores, pois a fortaleza denotava pouca resistência.

Esprememos-nos em meio aos agitados soldados, procurando não demonstrar nossa condição de espiões.

O comandante começou a falar com voz alta e boa entonação:

- Meus companheiros de luta. Hoje é um dia de felicidade para nós, pois estamos muito próximos de tomar a cidade e expulsar os amigos do Cordeiro. Haveremos então de morar nesse lugar que é bem melhor do que aquele onde estamos vivendo. Nós temos condições e desejamos viver numa cidade bem estruturada. Aqueles que estão ali podem muito bem arrumar outro lugar para viver.

Quando calou-se, a multidão gritou seu nome em unissono. O general olhou firme para a turba e continuou:

- Continuaremos os ataques durante o dia até que possamos adentrar os portões da cidade. Amanhã os ataques serão ainda maiores. Confio em cada um de vocês para vencermos esta guerra. Precisamos mostrar a nossa força para que saibam que estamos vivos e necessitamos de condições melhores para viver.

A multidão gritou e cantou hinos de guerra, enquanto tambores rufavam ensurdecedores.

O general retirou-se para sua tenda acompanhado por seus comandados. Em poucos minutos a multidão se dispersou e cada guerreiro foi juntar-se a seu grupo ao redor das fogueiras.

Nós também procuramos sair dali rumando para os limites do acampamento. Enquanto estávamos caminhando, notamos que um de nossos guerreiros escondeu-se entre duas barracas e ficou à espreita. Observando sua atitude não estancamos o passo e continuamos como se nada tivesse acontecido.

Não demorou dois minutos e notamos que uma figura encapuzada seguia nossos passos. Nosso companheiro saiu do esconderijo quando o suspeito passou e, com a mão, amordaçou-o, puxando-o para um lado. Logo estávamos juntos em meio às barracas com o intruso. Nesse lugar havia silêncio, parecendo que as barracas estavam vazias e os seus ocupantes estavam interessados em confraternizar com os amigos ao redor das fogueiras.

O capuz foi retirado da cabeça e, para nossa surpresa, notamos tratar-se do capitão, protegido do general Augusto. Nós o havíamos visto na comitiva do general quando estávamos montando acampamento no vale. Era um rapaz aparentando vinte e cinco anos, de tez morena, cabelos curtos, olhos negros. Era alto e robusto. Apresentava tristeza no olhar.

- O que estás fazendo aqui? – perguntei ao moço.

- Vim acompanhando vocês, de longe, porque precisava ver alguém aqui no acampamento.

- E conseguiu ver essa pessoa? – inquiri novamente.

- Sim. Pude ver – respondeu tristemente.

- Você sabe o perigo que passou entrando no acampamento? – voltei a perguntar ao jovem.

- Sim. Tenho plena consciência disso. Mas o que eu precisava fazer era algo muito importante e não podia deixar para depois.

- Pode nos dizer quem é a pessoa?

- Com certeza. É o comandante geral. Ele apresenta a fisionomia um pouco diferente, mas é a pessoa que eu queria ver.

Nesse instante aconteceu um início de confusão perto de nós. Dois grupos de diferentes guerreiros estavam alterados devido ao consumo de bebidas alcoólicas e principiaram a discutir sobre motivos banais. Antes que a confusão chegasse até nós, desaparecemos entre as barracas e chegamos ao limite do acampamento.

Em poucos minutos estávamos caminhando na estrada solitária, banhada de luar, voltando ao convívio de nossos guerreiros. Aos nossos ouvidos o alarido do acampamento começou a desaparecer na noite clara.

Continuar...

 

 

Luiz Marini - Livros

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Para refletir

“Eu chamo de bravo aquele que ultrapassou seus desejos, e não aquele que venceu seus inimigos; pois a mais dura das vitórias é a vitória sobre si mesmo.” (Aristóteles)