Centro Espírita Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

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Consequências

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               Em nossas visitas espirituais aos sofredores que ainda mourejam na luta quanto à questão do ressarcimento de dívidas contraídas por ocasião de suas vidas enquanto encarnados, encontramos um senhor de aproximadamente sessenta anos deitado em uma cama de um ranchinho pobre em uma região de Santa Catarina.

               Quando chegamos, a avó Maria, Luiz Dam e eu, observamos a pobreza que se instalara naquela casinha simples onde o homem, sua esposa e um filho moravam. Tudo muito simples, mas bem organizado, com os objetos principais para se viver, adequadamente colocados no seu devido lugar. A moradia de madeira, coberta de telhas envelhecidas, era pequena, simples, mas aconchegante.

               Notamos que a mulher, de cinquenta anos e o filho do casal, de vinte e cinco, cuidavam da casa e do enfermo com carinho especial, e isso se evidenciava na arrumação geral tanto no interior da casa quanto no pátio e no restante do terreno.

               - Pobre, simples, mas bem arrumado e limpo – disse a avó Maria quando chegamos. – A família passa por necessidades, mas a mãe e o filho trabalham e conseguem fazer frente às obrigações mais urgentes.

               - O homem está acamado há mais de dez anos e isso contribuiu para o não pagamento de obrigações, pois ainda tinham financiamento a pagar ao dono do terreno – elucidou Luiz Dam. – Em poucos anos as dificuldades cresceram e eles não conseguiram contornar os problemas.

               - Esse é o resultado das artimanhas que o enfermo executou quando da última encarnação quando viveu no tempo da Guerra do Contestado – afirmei aos amigos. – A vida sempre cobra o tributo das más ações que se comete.

               - Você poderia nos dar mais detalhes do que aconteceu naquela época Maria Rosa? – perguntou Luiz Dam.

               - Com certeza! – respondi. – Esse homem, que hoje colhe os frutos amargos de sua semeadura, era um sertanejo comum que vivia do amanho da terra e tinha como família a mesma esposa e o mesmo filho de agora. Com a anunciação da construção da estrada de ferro que cortaria o estado de Santa Catarina, na região de pinheiral e imbuia, eles ficaram ávidos com a possibilidade de ganhar dinheiro associando-se à companhia que construiria a ferrovia. Procuraram os responsáveis e se engajaram no projeto de expulsar os colonos que viviam nos limites dos quinze quilômetros de cada lado da ferrovia, que o governo doara à companhia. O projeto era expulsar os colonos posseiros das terras, pacificamente ou à força. Os sertanejos é que escolhiam como gostariam de deixar a terra onde já viviam há muitos anos.

               - Foi fácil o engajamento no grupo de vaqueanos deste homem, da mulher e do filho? – perguntou Luiz Dam.

               - A companhia procurava por pessoal para compor o grupo de aproximadamente trezentos indivíduos que deveriam desenvolver essa missão. Foi fácil para esta família adentrar os quadros dos vaqueanos. O desejo que tinham em alcançar fama e dinheiro com os espólios dos despejados da terra, associados com a dureza de seus corações, fez com que se tornassem sanguinários e déspotas para com seus antigos companheiros de lida na terra.

               - Qual era o principal objetivo desses vaqueanos? – tornou a perguntar Luiz Dam.

               - Havia a determinação de que os colonos que vivessem nas terras, agora pertencentes à companhia, fossem expulsos o quanto antes.  Essa decisão se prendia ao fato que a companhia queria retirar os pinheiros e a imbuia existentes no local, comercializar a madeira, utilizar parte da imbuia como dormentes da ferrovia, e depois vender a terra para imigrantes do Brasil e do estrangeiro. Com essas transações a companhia ganharia muito dinheiro, mas os colonos teimavam em não deixar a terra natal e isso era um problema que precisava ser resolvido.

               - O que esses vaqueanos fizeram? – perguntou a avó Maria.

               - Iniciaram o trabalho de despejo das famílias dos colonos. Quem saía da terra sem reclamar podia ir embora sem problemas, mas quem se recusasse, recebia o devido castigo. As casas e plantações eram queimadas, o gado levado embora, os colonos mortos. Quando as primeiras notícias dos massacres correram a região, os outros colonos se agruparam, juntaram-se a José Maria e começaram a revolta que culminou na Guerra do Contestado.

               - O que esta família fazia naquele tempo? – tornou a perguntar a avó Maria.

               - O homem era vaqueano que atuava na primeira linha de combate. Atuava diretamente nos trabalhos de expulsão dos colonos, não titubeando, se fosse necessário, matar. Suas mãos mancharam-se de sangue inocente e isso acarretou esse carma que agora espia. A esposa e o filho trabalhavam no setor de retaguarda dando apoio às atividades do grupo principal. Faziam comida, cuidavam dos cavalos, das roupas, das armas, munição e tudo quanto fosse necessário para que os vaqueanos estivessem sempre prontos para o combate aos sertanejos.

               - Quanto tempo durou o trabalho dessa família? – perguntou Luiz Dam.

               - O trabalho como vaqueano durou todo o tempo da guerra, isto é, de 1912 a 1916, e continuou depois do término, pois ainda havia a necessidade de promover a limpeza étnica dos que restaram vivos. A família viveu unida até 1920, quando o filho sumiu pelo mundo em busca de aventuras, a esposa faleceu e o marido viveu ainda cinco anos, vindo a falecer em um acidente com arma de fogo. Ele estava manuseando o rifle quando a arma disparou, matando-o instantaneamente.

               - Então começaram os problemas no mundo espiritual... - disse a avó Maria.

               - Quem participa de um conflito das proporções da Guerra do Contestado, geralmente fica importunado com as dificuldades que encontra na espiritualidade. Esse homem, quando acordou no mundo espiritual, estava em um grande campo minado, onde não podia se mover, pois se o fizesse seria destroçado por bombas escondidas no solo. Ele sabia disso e permaneceu, assim, imóvel, durante longo tempo. O sangue brotava de suas mãos incessantemente, fazendo-o relembrar os crimes cometidos contra seus companheiros, pois também ele era um colono e se voltara contra os amigos.

               Depois de longos anos de sofrimento no umbral, recebeu a visita de sua mãe, que havia intercedido perante os mentores espirituais, e recebeu dela a benção para aliviar as suas dores. Ele compreendeu que havia cometido desatinos e crimes contra pessoas, que eram seus irmãos, e isso necessitava de reparos. Pediu perdão a Deus e ofereceu-se para resgatar os débitos contraídos da maneira que o Pai Celestial achasse melhor. Foi, então, encaminhado a um Posto de Socorro onde recebeu o tratamento necessário para que tivesse condições de reencarnar e quitar os débitos contraídos. Assim, recebeu a dádiva de renascer nas mesmas terras onde havia cometido seus crimes e poder reparar o passado. Renasceu com problemas de saúde, o que fez com que tivesse que batalhar muito para adquirir o pão de cada dia. Ficou órfão cedo e sofreu muito nas mãos de pessoas embrutecidas que nele batiam por qualquer motivo. Mesmo com a saúde debilitada tinha que trabalhar nos serviços mais rudes para sobreviver. Com o passar do tempo encontrou a esposa da vida anterior, que também havia sofrido no umbral, e casou-se com ela. O filho reencarnou alguns anos depois e também apresentou problemas de saúde, o que lhe impossibilitou de estudar e ter um trabalho mais digno. Vive de trabalhos esporádicos e não consegue firmar-se em emprego que lhe dê o sustento e a segurança necessários. Há dez anos o homem está enfermo, na cama, mas sofre com resignação porque compreende que, se está nesse estado precário, está colhendo os frutos de sua semeadura no passado.

               - O que o aguarda no futuro? – perguntou Luiz Dam.

               - Ele ainda tem que permanecer alguns anos nesse estado de enfermidade. Depois, desencarnará e alcançará rápida recuperação dos movimentos em seu perispírito. Então será o tempo de alçar novos voos na espiritualidade com o ingresso em instituições que promoverão seu reencontro com a paz. Estudará, aprenderá nova profissão, e, em futuro próximo, haverá de retornar à carne para novo projeto onde será um trabalhador do bem.

               - A compreensão das ligações entre as reencarnações farão, no futuro, com que os homens se habilitem a novos projetos superiores, no preparo consciente de sua jornada espiritual no rumo da perfeição – disse a avó Maria. – Todos compreenderão que o trabalho no bem não se perde com a morte do corpo, mas revive e se amplia no retorno ao corpo carnal.

               - Nossos amigos encarnados já estão chegando com algumas provisões a esses irmãos – confidenciei aos meus companheiros. - Parece pouca coisa, mas o auxílio material faz com que os necessitados recobrem forças e alcancem o objetivo de continuar a luta a que estão engajados.

               - Jesus nos recomendou amar ao próximo como amamos a nós próprios – disse Luiz Dam. – Todos os homens, não importa o credo, a raça, a nacionalidade, são irmãos e devem seguir o ensino de Jesus. No dia em que os homens tiverem o Cristo como seu guia, as guerras e discórdias cessarão e o mundo será um paraíso para se viver.

               - Isso não está longe de acontecer, Luiz – comentou a avó Maria. – O chamado está feito e compete a nós arregaçar as mangas e trabalhar para que o reino de Deus seja implantado na Terra.

               - Com certeza, avó Maria – comentei – Não podemos estar ausentes da falange dos Espíritos do bem que devem implantar, na Terra, o período de Regeneração, onde apenas Espíritos bons aqui permanecerão.

               Quando os amigos encarnados concentraram e fizeram uma prece agradecendo a Deus pela dádiva da vida, também nós oramos agradecendo e pedindo as bênçãos celestes àqueles irmãos sofridos que ainda tinham muito caminho a trilhar. Despedimo-nos dos encarnados e retornamos à nossa cidade espiritual onde muitas obrigações esperavam por nós.

 

Maria Rosa/Luiz Marini 18-09-2013

 

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