Centro Espírita Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

  • Aumentar o tamanho da fonte
  • Tamanho padrão da fonte
  • Diminuir tamanho da fonte

CAPÍTULO 43: As filhas de Antonio

Enviar por E-mail Versão para impressão PDF

<<< Anterior... 

CAPÍTULO 43
 
 
 
As filhas de Antonio

 
                                 Marta e Marcela são perseguidas pelo
                           bando de Altair e recebem a ajuda
         de Luisinho e avó Maria.


 
               A avó Maria e Luisinho estavam esperando por mim no alpendre. O menino, a todo custo, queria contar o que havia acontecido na viagem que fizera com a avó. Antes, porém, pediu para que eu contasse sobre nossa viagem. Relatei o ocorrido e notei o brilho diferente nos olhos do menino que, por certo, gostaria de conhecer o forte onde estavam os prisioneiros. O forte, sem os bandidos, certamente.
               A avó Maria, com seu jeito simples onde se denota a sabedoria interior, relatou o que havia visto sobre as filhas de Antonio:
               ― Maria Rosa, verificando a história da família de Antonio, descobri coisas interessantes que ocorreram depois do assassinato da mãe e dos filhos. O tempo transcorreu e a mãe e uma das filhas conseguiram se recuperar e reencarnar enquanto as outras filhas tiveram problemas sérios e não conseguiram se libertar dos emaranhados que unem as vítimas aos algozes. Desde a morte das meninas e da mãe, em 1943, assassinadas pelo bando de Altair, a situação não havia sido resolvida a contento, pois esses Espíritos ficaram longo período vagando pela cidade de Pato Branco, sem saber para onde ir e o que teriam que fazer. A morte violenta havia criado nos corações a revolta contra Altair e seus jagunços. Esse sentimento não permitia que elas subissem a regiões melhores, onde pudessem se recuperar e melhorar o astral para então saber que rumo tomar na vida. A mãe e a filha Miriam, com o tempo, foram esquecendo a revolta e perdoaram os inimigos, obtendo a possibilidade de serem recolhidas a uma cidade espiritual onde tiveram a oportunidade de estudar e criar laços com outros Espíritos para efetivar a reencarnação em breve tempo. Marta e Marcela não conseguiram o equilíbrio de suas forças espirituais e acabaram se perdendo da irmã e da mãe, sendo levadas por uma caravana de Espíritos nômades que passava pela região. Desgarradas da família, vagaram de cidade em cidade durante muitos anos, até que foram abandonadas quando passavam pela região de Curitiba. Um grupo de Espíritos levou-as de volta à região sudoeste e elas acabaram vagando na companhia do pai na época que era andarilho. As saudades fizeram com que se unissem ao pai e também elas andassem pelo mundo sem destino. Assim, o pai, Antonio, andava pelas cidades pedindo esmolas e dormindo nas cabanas abandonadas, acompanhado pelos Espíritos das duas filhas, Marta e Marcela.
               ― As filhas ficaram com o pai até o seu desencarne? – perguntei à avó, interessada em saber o que havia acontecido com as meninas.
               ― Não – respondeu a avó – Elas continuaram junto com o pai até o desencarne de Altair e alguns de seus comparsas. O fazendeiro, ao se ver liberto da carne, começou a perseguir Antonio, causando-lhe muitos problemas. Antonio procurou ajuda espiritual e conseguiu, durante alguns anos, ficar protegido das investidas de Altair. Mas depois do desencarne ficou à mercê do inimigo e caiu em suas garras, sendo aprisionado e conduzido ao forte no umbral.
               ― As meninas conseguiram fugir de Altair?
               ― Sim. Com a morte do pai e a consequente prisão, as meninas fugiram e se esconderam do bando como puderam.
               ― Onde estão as meninas atualmente?
               ― Vivem escondidas em lugares ermos, em casas abandonadas, e, quando podem, encontram-se com a irmã que está encarnada, durante os sonhos desta.
               ― E se entrarem em contato com a mãe, o que pode acontecer? 
               ― Os comparsas de Altair estão a sua procura e elas, sabendo disso, observam a mãe à distância.
               ― O Luisinho se comportou bem na aventura? – perguntei olhando para o pequeno, esperando que nos contasse o que viu.
               ― Claro que me comportei, Maria Rosa – respondeu o menino, com os olhos brilhantes –. Se quiser, posso contar o que fizemos.
               ― A palavra é sua, meu pequeno – concordei que nos contasse o que havia acontecido na viagem que fez com a avó Maria.
               ― Quando nos aproximamos da casa de seus pais, na cidade vizinha à do Centro, soubemos, por telepatia, que as meninas se encontravam num tugúrio nas cercanias da cidade. Quando nos aproximamos do rancho vimos diversas formas espirituais de baixa vibração pelos arredores. Eram miasmas enegrecidos provenientes da mentalidade humana menos digna que se materializavam no lugar sombrio. Entramos na choupana e vimos as meninas encolhidas perto da parede, temerosas de serem encontradas pelos jagunços. Soluçavam baixinho, sentadas, com a cabeça encostada nos joelhos. 
               ― Estavam sozinhas no rancho? – perguntei ao menino, satisfeita pela narrativa.
               ― Na parede oposta havia uma jovem de quinze anos e um menino de sete. Também estavam tristes e choravam. A avó se aproximou deles e perguntou o que havia acontecido e o que faziam ali. A moça respondeu que ela e o irmão haviam desencarnado em um acidente automobilístico e não conseguiam sair da choupana, que na verdade, era um abrigo acolhedor.
               ― O que aconteceu que ficaram presos à Terra e não conseguiram subir à espiritualidade maior?
               ― O problema, Maria Rosa, é que foram criados sem qualquer conhecimento de Deus, pois os pais eram ateus e não queriam que os filhos tivessem qualquer religião. Isso afetou suas vidas e fez com que, somado com a morte violenta, os levasse a perambular pela crosta sem destino.
               ― Eles não tinham mentores para ajudá-los? 
               ― Tinham sim, porém, estavam sem sintonia com os guias espirituais por viverem em outro plano psíquico. A negação de Deus e a vida centrada em seu ego levaram os irmãos a sofrerem as consequências desses atos, pois o pensamento do homem na Terra reflete para onde vai, no mundo espiritual, depois da morte.
               ― Como se chamam?
               ― Ela é Adriana e ele, Mateus.
               ― E as filhas de Antonio, avó, como receberam a sua presença?
               ― Elas não tinham consciência do que faziam e só pensavam em fugir dos inimigos do pai – respondeu a avó Maria -. Os jagunços estavam procurando por toda parte, pois as filhas eram importantes no contexto da vingança do fazendeiro, mas as meninas conseguiam escapar.
 
               ― Qual era o aspecto físico das crianças?
               ― Estavam maltrapilhas, sujas, com os cabelos desgrenhados, unhas compridas, descalças.
               ― A senhora conseguiu conversar com elas?
               ― Não. Elas só choravam e tentavam se esconder de nós. Elas permaneceram assim até que Luisinho começou a conversar com elas e então abriram um sorriso leve e trocaram algumas palavras.
               ― Afinal, haviam começado a conversar... 
               ― Maria Rosa, isso não durou cinco minutos, pois ouvimos conversas perto do rancho e saí para ver do que se tratava. Eram dez jagunços que chegavam para vistoriar o rancho e tentar descobrir o paradeiro das meninas.
               ― Opa!... Estava começando a encrenca?
               ― Sim!... Os jagunços eram malcriados e tentaram fazer piadas de mau gosto comigo dizendo: -“A “coroa” está tentando esconder algo de nós. Acho que ela quer comer poeira trancando a porta desse jeito”.
               ― Avó Maria!... Não diga que eles tiveram coragem de ser mal educados com a senhora...
               ― Pois é Maria Rosa, bandido na Terra, bandido no mundo espiritual!... Fiquei à porta esperando que eles me atacassem. Eles tinham medo de se achegar e diziam: -“A “velhota” é feiticeira e esconde a força que tem. Parece o tatu que esconde a gordura sob a casca”. 
               ― Ficaram no impasse?
               ― Por alguns minutos, pois nesse instante Luisinho chegou ao meu lado, mas isso só piorou as coisas, pois aí sim, os bandidos criaram coragem.
               ― Atacaram em massa?
               ― Sim!... Mas como atacavam rolavam por terra, pois se criou uma barreira espiritual entre nós o que não permitia que se aproximassem.
               ― Comeram poeira? 
               ― Sim!... O que pretendiam fazer comigo aconteceu com eles. Nem eu nem Luisinho mexemos um dedo para nos proteger. A luz divina fez isso por nós.
               ― O que aconteceu então?
               ― Quando conseguiram levantar correram para a cidade sumindo na primeira esquina.
               ― O que aconteceu com os que se escondiam na choupana?
               ― Quando entramos no rancho vimos os irmãos abraçados e olhando para nós, porém, as filhas de Antonio haviam sumido.
 
               
 

Luiz Marini - Livros

kiko_e_malhado.jpg
Clique na imagem para acessar


Para refletir

"Além da terra, além do infinito, eu procurava em vão o céu e o inferno. Mas uma voz interior me disse: O céu e o inferno estão em ti mesmo." (Omar Kháyyám)