Centro Espírita Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

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CAPÍTULO 42: O forte

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CAPÍTULO 42
 
 
 
O forte                     

 
                        Os amigos chegam ao forte onde
                  os prisioneiros se encontram.


 
               Finalmente chegamos à região onde se arranchavam os Espíritos dos jagunços. Estávamos à frente de um campo imenso onde os Espíritos haviam erguido uma fortaleza com troncos verticais à maneira dos fortes do exército americano do velho oeste. Na parte externa centenas de tendas estavam erguidas à maneira das utilizadas pelos exércitos que acampavam durante as campanhas das guerras.
               Centenas de Espíritos estavam entre as tendas, cruzando os portais do forte, chegando ou saindo do acampamento nos limites com o mundo exterior ao campo. O forte estava encravado ao lado da estrada que seguia para adiante rumo aos confins do umbral grosso.
               Era o lugar onde se escondiam os jagunços, e, com certeza, mantinham prisioneiros os Espíritos inimigos do tempo da Revolta dos Colonos. Era preciso verificar o que estava acontecendo e, para isso, modificamos nossas vestimentas à maneira dos moradores do lugar para que passássemos despercebidos pelos guardas e jagunços.
               Passamos entre as tendas e notamos a promiscuidade existente entre os Espíritos que conservavam as características marcantes de homens e mulheres. A condição subumana e o palavreado chulo doíam em nós, que tínhamos dificuldades em acreditar no que víamos e ouvíamos. Alguns homens mexiam conosco vendo nossa condição de mulheres, mas se recolhiam quando notavam que estávamos acompanhados por homens fortes e bem apessoados.
               As tendas estavam arrumadas lado a lado e eram centenas, deixando apenas uma larga passagem para a entrada e saída do forte. A cara dos moradores era de poucos amigos, também pudera, não eram Espíritos de boas condições, e sim, bandoleiros, facínoras, mercenários, lacaios, enganadores, fraudadores, assassinos, mentirosos e outros tipos de maus elementos.
               Todos esses sujeitos estavam reunidos num só local o que dava ao ambiente o ar pesado e fétido, próprio das emanações espirituais de baixo nível. Centenas de Espíritos iam e vinham em seus afazeres, geralmente ligados às lutas, brigas, dissensões que ocorriam entre os encarnados e os desencarnados.
               Muitos grupos que perambulam na Terra em busca dos incautos que possam fornecer fluidos para as suas maracutaias, são oriundos desse tipo de agrupamento. Outros grupos saem pelo umbral para aprisionar Espíritos que estejam vagando sem rumo, outros mais se aventuram em busca dos inimigos de outros tempos.
               Posso afirmar que nesse forte estão reunidos os Espíritos que fogem da luz e que estão imbuídos do desejo de prejudicar os outros. Nossa missão começava ali, no meio dos Espíritos destituídos de qualquer sentimento de moral ou amor. Não seria fácil acertar os ponteiros nesse campo de ignomínia, mas somos trabalhadores do bem e isso nos faculta buscar o resgate dos que estão em suas mãos.
               Os portões do forte estavam abertos e passamos os umbrais sob a vigilância de homens mal encarados que nos viram, mas deixaram que seguíssemos sem nos incomodar. O forte era imenso com mais de trezentos metros de comprimento e duzentos e cinquenta de largura.
               O pátio imenso dispunha de todo tipo de apetrechos e armamentos em pequenas barracas, lado a lado, num dos corredores do lado direito. O pé direito da paliçada era alto e abrigava casinhas nas laterais e, no fundo havia um “saloon”, a cadeia e o escritório dos comandantes.
               Seis carroças aparelhadas por cavalos e burros estavam dispostas no lado esquerdo da entrada, perto de um posto de correios ou comunicações. Arreios, escudos, lanças e outros objetos estavam dispostos em pequenas estantes ao lado das carroças.
               Dezenas de jagunços iam e vinham, correndo atrás de serviços que tinham urgência em ser feitos. Um grupo de jagunços passou por nós rapidamente empurrando um homem de cabelos brancos que tinha as mãos manietadas, sendo mais um prisioneiro que chegava.
               Dirigimo-nos ao saloon aonde muitos homens bebiam, encostados ao balcão ou sentados em velhas cadeiras ao redor de mesas onde o carteado corria a solto. Muitas mulheres dançavam em um palco, animadas por um pianista que tocava músicas de época.
               Manoel se aproximou do balcão e conversou durante alguns minutos com um dos atendentes. Quando retornou fez sinal para que retornássemos ao pátio. Conversou rapidamente conosco, pediu que eu fosse junto até a cadeia para ver quem estava preso e retornaríamos em seguida. Arrumei um capuz com o qual escondi o máximo possível o rosto e segui os passos de Manoel.
               Quando entramos nos deparamos com diversos guardas sentados em volta de uma mesa retangular. Um deles levantou e veio nos receber. Manoel disse que, a mando de um dos dirigentes do forte, estávamos visitando um dos presos para saber da possibilidade de ser transferido para outro lugar. O guarda abriu a porta principal e deixou-nos entrar, indicando a última cela como prisão de quem procurávamos.
               Um longo corredor ao lado das celas demonstrava que havia mais de duzentos presos. Eles estavam amontoados nos cantos e eram lídimos sofredores sem vida, pátria ou razão. Parecia que haviam retornado da guerra, demonstrando estarem alucinados, pois eram muito maltratados.
               Caminhamos pelo corredor sentindo o ar fétido e o cheiro de mofo que vinham impregnar nossas narinas. Os presos nos olhavam, admirados, procurando saber quem éramos e o que fazíamos ali. Notei que eram homens, mulheres, velhos e crianças enchendo os cubículos. Seus olhares pediam socorro num silêncio que me cortava o coração.
               De repente estanquei o passo. De relance havia visto uma figura que me era conhecida. Seu Medeiros estava ali à minha frente, com o semblante abatido e o olhar triste parecendo estar distante. Quando me viu sentiu o olhar se iluminar sem saber a razão. Eu havia o visto nas projeções, mas ele tinha apenas uma ideia apagada de quem eu poderia ser. Mas por dentro, no íntimo da alma ele sabia que o conhecia. Com um leve aceno de cabeça cumprimentei-o, como a dizer “até breve” e segui em frente.
               Quando chegamos ao final do corredor pude ver quem Manoel havia requisitado visita. Numa cela sete homens estavam presos a correntes penduradas na parede. Entre eles estavam Antonio e Dirceu. Encontravam-se em estado lamentável devido ao sofrimento a que eram submetidos todos os dias com o chicote.
               Estavam sentados num canto da cela parecendo moribundos. Os outros homens eram colonos com quem Altair havia se desentendido e que agora recebiam a correção necessária segundo os costumes dos jagunços, ou seja, chicotadas e escárnio.
               Chamei Antonio e Dirceu e pedi que se aproximassem das grades. Eles não compreendiam o que eu estava pedindo, pois estavam embotados em sua capacidade de pensar. As roupas eram andrajos e os cabelos estavam compridos, em desalinho.
               Minha intenção era quebrar o cadeado da porta, arrancá-los da enxerga e levá-los à liberdade. Mas isso não podia ser feito nesse momento e não podíamos esquecer os outros presos que também mereciam a oportunidade de sair daquele inferno.
               Olhei firmemente para os homens naquele cubículo e, mentalmente, cientifiquei-os de que em breve voltaríamos a nos ver. Cuidei para que guardassem na alma esse pensamento de esperança no futuro.
               Manoel chamou-me e saímos, rapidamente, pelo mesmo corredor infecto. Quando saímos no alpendre da cadeia vimos que chegavam, vindos do prédio central de administração, Altair e quatro comparsas. Viramos para a direita e apressamos o passo procurando distância daqueles bandidos. De relance, olhei para trás e vi que nos olhavam como a procurar saber quem éramos e o que fazíamos no lugar.
               Quando encontramos os companheiros e estávamos saindo do forte, ouvimos gritaria, hurras e vivas provenientes dos portões do forte. Alguns jagunços arrastavam um homem com as mãos manietadas. O chicote vergastava suas costas, rasgando os pedaços de panos que haviam sido uma camisa. Era Darci que chegava, com as mãos amarradas, sob os apupos da bandidagem que formara um corredor polonês e aproveitava a oportunidade para bater no prisioneiro.
               Levaram Darci até a presença de Altair que soltou uma gargalhada quando o viu, dizendo que ninguém conseguia escapar à sua ira. O prisioneiro foi levado para a cadeia e Altair retornou ao seu escritório.
               Saímos rapidamente do forte, passamos pelas barracas e seguimos pela estrada que conduzia para fora do umbral, aos campos limítrofes às regiões de luz. No retorno encontramos as mesmas cenas dantescas que havíamos visto na descida, mas, no momento, nada podíamos fazer por aqueles irmãos necessitados haja vista não termos tempo para levá-los às regiões de luz.
               Em minha cabeça ainda ribombava a algazarra do povo quando viu que Darci estava chegando ao forte sob escolta e senti no coração a vontade indomável de ali voltar para libertar aqueles infelizes.
 

 

 

Luiz Marini - Livros

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Para refletir

"O êxito de um bom dito depende mais do ouvido que o escuta do que da boca que o diz." (William Shakespeare)