Centro Espírita Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

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CAPÍTULO 40: Conversando com a avó Maria

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CAPÍTULO 40
 
 
 
                  Conversando com a avó Maria

 
                              Maria Rosa aproveita para garimpar
                         conhecimentos junto à avó Maria.


 
               O dia estava amanhecendo quando nos sentamos no alpendre de nossa casa e começamos a dialogar acerca do problema que tínhamos a incumbência de resolver.
               ― Foi bom conhecer a cidade, na época de 1957, onde a senhora morou durante os últimos quarenta anos de vida na Terra – eu disse à avó Maria com a certeza de que ela se sentia lisonjeada em se ver retratada, ainda que timidamente, em parte da história. - A senhora saiu de Santa Catarina para trabalhar em Pato Branco?
               ― Deus tinha determinado em meu destino viver nessa cidade e nela desenvolver o trabalho espiritual durante aproximadamente quarenta anos. Com certeza procurei cumprir o que estava programado em minha ficha cármica.
               A avó Maria estava radiante, espargindo luminosidade em todo seu corpo, demonstrando que o Espírito de luz pode brilhar onde e quando quiser. Para aguçar minha curiosidade perguntei:
               ― Avó, como foi morar num lugar onde aconteceu a Revolta dos Posseiros?
               ― Nós sentimos na pele a maldade dos homens que enganavam os colonos vendendo terras sem escrituras, cobrando duas vezes pelo mesmo terreno e, depois, ameaçando de morte se não deixassem o lugar. Nós vivemos isso quando fomos morar perto do rio Iguaçu. Tivemos que sair da terra que havíamos comprado para não morrer. Voltamos a Pato Branco e ali também aconteceu grilagem de terras, vendas fictícias, documentação adulterada, perseguição, mortes, até que os colonos se revoltaram e, com a ajuda da população da cidade, expulsaram as Companhias que comercializavam as terras.
               ― Nós, no Contestado, enfrentamos uma guerra de quatro anos por causa da terra. Vocês, com a Revolta dos Colonos, conseguiram se manter na terra e obtiveram a titulação legal das mesmas. Qual a diferença entre as duas revoltas?
               ― Maria Rosa!... Quantos dos que morreram na Guerra do Contestado renasceram na região sudoeste para enfrentar novamente a mesma questão? Acredito que a diferença maior foi que, no Contestado, as autoridades ignoraram os desejos do povo e favoreceram a Companhia que construiu a estrada de ferro; na Revolta dos Colonos as autoridades já haviam sido muito criticadas pelo genocídio causado ao povo catarinense, por isso resolveram olhar a questão de maneira diferente. Ninguém, no mundo, aceitaria outra carnificina na metade do século XX.
               ― A senhora acredita que o tempo em que ocorreram as revoluções foi o determinante para a solução encontrada?
               ― Certamente. Em 1912 não havia quem brigasse por direitos humanos e as comunicações eram precárias; o povo, espoliado, era um mero desconhecido e o pensamento dos governantes era diferente de 1957. As autoridades, em 57, tomaram a decisão certa ao titular as terras dos posseiros. No Contestado teriam, que, no mínimo, reassentar os colonos e proporcionar condições para reconstruir moradias, renovar plantios, pensar no escoamento das safras, estudo para as crianças, assistência médica e dentária. Se ouvissem a voz do povo teriam considerado seus direitos e evitado a guerra.
               ― A senhora aparece nas imagens levando o filho para Anastácia benzer. A senhora sempre foi ligada às práticas espirituais?
                 ― Maria Rosa! Desde criança eu enxergava os Espíritos e com eles me comunicava. As lides espirituais sempre estiveram ligadas ao meu Espírito que ininterruptamente procurou conhecer o porquê de as coisas acontecerem comigo.
               ― A senhora conheceu a Doutrina Espírita desde criança?
               ― Não, Maria Rosa!... Eu via os Espíritos, mas permaneci alheia à Doutrina Espírita até perto dos quarenta anos, quando então, aconselhada por amigas, procurei um Centro Espírita para me curar das visões espirituais que me deixavam depressiva e doente.
               ― Demorou muito tempo para a senhora encontrar conforto e a cura na Doutrina?
               ― Em questão de três meses já estava trabalhando com os mentores espirituais no Centro e livre das influências dos Espíritos inferiores, que era o que me deixava doente.
               ― No Centro é que a senhora conheceu o Dr. Bezerra?
               ― Não!... O Dr. Bezerra sempre me aparecia e somente fui saber quem era depois de conhecer o Espiritismo.
               ― O irmão Delfino trabalhava com ele...
               ― Sim! Por meio da mediunidade do irmão Delfino foi que conheci melhor o Dr. Bezerra. O médico dos pobres sempre falava ao nosso grupo através desse médium.
               ― Algum outro médium viu o Dr. Bezerra ao seu lado?
               ― Sim! Muitas vezes diversos médiuns confirmaram que o Dr. Bezerra estava ao meu lado. Um fato interessante ocorreu em uma das primeiras palestras do Raul Teixeira no Centro Espírita Luz e Caridade, quando fui assistir com meus filhos Valério e Luiz. Ao entrarmos na Casa Espírita o Raul estava recepcionando os convidados e, quando nos viu, nos disse: -“A senhora trabalha com o Dr. Bezerra, pois ele entrou com vocês”. E eu confirmei que o Dr. Bezerra era o guia espiritual de nosso Centro. Foi interessante a confirmação do Raul, que é um grande e respeitado médium brasileiro.
               ― Muitos pensam que trabalhar com o Dr. Bezerra é caso de mistificação...
               ― Tem muita gente que não sabe o que acontece a um palmo em frente ao nariz e se autodenomina conhecedor da espiritualidade e mestre do Espiritismo. Geralmente quem não tem a proteção desse médico maravilhoso desdenha e desqualifica quem tem.
               ― Os chamados “Espíritas de escritório”...
               ― Aprendem algo sobre o Espiritismo através de livros e do que os outros falam. Nunca tiveram uma visão espiritual, por menor que seja, e querem se arvorar os conhecedores e defensores da “pureza doutrinária”.
               ― O que a senhora compreende por “pureza doutrinária”?
               ― Os princípios básicos do Espiritismo não devem ser modificados, pois são a base da Doutrina, mas o conhecimento espiritual está sempre avançando e a Doutrina deve acompanhar esse desenvolvimento para não ficar para trás no mundo.
               ― No tempo de Kardec pouco se falava do mundo espiritual e das relações com os encarnados. O que mudou com o tempo?
               ― Kardec codificou o Espiritismo em quinze anos de trabalho e desencarnou em plena atividade junto à Doutrina. Nesse tempo de atuação ele não pôde entrar em todos os aspectos da relação entre os encarnados e os desencarnados. Se Kardec ampliasse os estudos teria muita dificuldade em explicar todas as relações entre os dois mundos. O que mudou é que o Espiritismo evoluiu muito e surgiram diversos médiuns que abriram o leque de estudos da Doutrina. Com Chico Xavier, Yvonne do Amaral Pereira, Peixotinho, Eurípedes Barsanulfo e tantos outros, o Espiritismo teve uma dinâmica e um desdobramento muito grande, demonstrando facetas novas que Allan Kardec não teve tempo de estudar.
               ― Mas dizem que tudo que não está escrito por Kardec é falso ou erro doutrinário...
               ― O próprio Kardec disse que a Doutrina é evolucionista, que, se o Espiritismo estivesse errado em algum ponto de vista e a ciência o demonstrasse, a Doutrina modificaria seu pensamento acerca do assunto.
               ― Qual é o seu pensamento sobre as pessoas que se acham “donas” do Espiritismo?
               ― O Espiritismo não tem dono! É comandando por Jesus e pelos Espíritos superiores. O problema é que cada um enxerga o Espiritismo de seu jeito e, para eles, os outros estão errados. Existem os “donos” do movimento Espírita que acham que somente eles professam a Doutrina verdadeira e que os outros estão fora do movimento. Existem os “donos” das publicações de livros que acham que somente o que eles escrevem ou publicam é que têm importância para o público e os outros são meros coadjuvantes. Existem os que têm Casas Espíritas que são filiadas a algum órgão e pensam que as outras Casas são apenas espiritualistas e não Espíritas. Esses “Espíritas de escritório” pensam que estão com a verdade e que todos os outros estão errados. Então repetimos a pergunta que Pilatos fez a Jesus: O que é a verdade? Mesmo o Mestre calou-se ante a questão.
               ― Cada um tem a sua verdade...
               ― A verdade de cada um vem de seu conhecimento. Um Espírito que já alcançou os mais altos céus tem a concepção de verdade muito diferente de um Espírito que ainda chafurda nos lamaçais do umbral e das trevas. Assim é o conhecimento para nós. Depende de cada um e da percepção que tem dos fatos que o rodeiam.
               ― Muitos pensam que o que escrevemos sobre o mundo espiritual é bobagem e sai apenas da cabeça do médium...
               ― O que fazer? Muita gente não consegue sair do corpo e fazer a mínima excursão no que concerne às viagens espirituais. Muitos vivem em seu mundinho do tamanho de uma bola de gude e acreditam que estão com o conhecimento total, ignorando aqueles que viajam às cidades espirituais, que mantém contato com os Espíritos, que trabalham e que lutam pelos semelhantes, indo até os mais fundos infernos para resgatar os sofredores e que continuam trabalhando apesar das calúnias que recebem. Quantos disseram que Chico Xavier era uma farsa? Deixemos isso de lado, Maria Rosa, pois a morte haverá de mostrar o mundo espiritual real a cada um e, receio, que então será tarde e haverá muito choro e ranger de dentes...
               ― Por que as pessoas não seguem seu caminho respeitando o poder que os outros têm de conhecer algo a mais que o homem comum conhece?
               ― Isso vem arraigado em seus Espíritos desde muitos séculos quando foram formadores de intrigas, delações, traições, perjúrios, falsidades, perfídias... Infelizmente ainda carregam esses traços na memória e combatem os que não vivem de acordo com seu pequeno mundo.
               ― Muita gente perto de sua casa também disse que a senhora era bruxa e que iria queimar no fogo do inferno...
               ― Que felizes seriam os que falaram mal de nós se tivessem a oportunidade de sentir a felicidade que temos em cada dia... Todos, sem exceção, que falaram mal de nós, penaram muito depois da morte e tiveram a felicidade de ser ajudados por nossos grupos de trabalho.
               ― E aqueles que diziam que o Centro Espírita era uma casa onde se praticava magia negra, feitiços...
               ― A resposta sempre foi uma só: trabalho em nome de Jesus. Tantos anos de trabalho no bem fez com que os inimigos se calassem.
               ― E os Espíritas que pensam que o Centro, por não seguir suas ordens constituídas, deveria não ser Centro Espírita e sim Centro Espiritualista?
               ― O Espiritismo é uma Doutrina que nos pertence tanto quanto a eles. Cada um com sua verdade... Nós sempre seguimos as ordens dos mentores espirituais, de Mãe Santíssima, Jesus e Deus. Nunca precisamos seguir ordens de pessoas tão comuns quanto nós.
               Senti que a avó Maria pegou pesado com aqueles que se arvoram em donos do Espiritismo e querem, a todo custo, manter os Espíritas sob seus domínios. Pena que só vão descobrir esse erro quando retornarem ao mundo espiritual. Mas, para continuar aprendendo, continuei nossa conversa com avó Maria, pois ela tem muito a nos ensinar:
               ― Muitos dizem que desvirtuamos a Doutrina falando de coisas modernas e de lugares onde os Espíritos têm casas, roupas, comidas, sucos, águas, sentimentos, ódios, paixões, amor e tanta coisa mais. A senhora pensa que deveríamos ficar calados e deixar o tempo passar e que cada um descobrisse, por si mesmo, o que existe no mundo espiritual?
               ― Jesus disse: - “E conhecereis a verdade e a verdade vos libertará”. A maior caridade que podemos fazer pelo Espiritismo é a sua divulgação ao mundo. Isso modificará os maus que conhecerão de antemão os castigos a que estarão sujeitos se não modificarem seus caminhos e reforçará os bons a andarem na senda do bem. É muito importante demonstrar ao mundo que a morte não existe e que o Espírito continua a viver depois da morte do corpo, pois isso modificará muita gente. Divulgar o que acontece no mundo espiritual é muito importante, pois todos têm o direito de saber o que os espera depois da morte.
               ― O que a senhora me diz daqueles que conhecem a vida no mundo espiritual e continuam a praticar más ações pensando que são inalcançáveis à mão da justiça divina?
               ― Serão mais devedores, pois muito sabem. O seu castigo será maior em proporção à soma de seus conhecimentos...
               ― E o que pensar daqueles que afirmam que nós, os Espíritos, somos apenas “fumacinhas”?
               ― Vamos esperar que desencarnem para que vejam “in loco” o mundo espiritual. Muitos chorarão o tempo perdido e pedirão a Deus para voltar e recomeçar tudo de novo.
               Eu estava pronta para fazer outra pergunta quando chegaram Luisinho, Julia e Lucas, acompanhados por Mari, convidando-nos para juntos seguirmos até a escola.

 

 

Luiz Marini - Livros

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Para refletir

"O desespero é uma doença. E um povo desesperado,lesado por dificuldades enormes, pode enlouquecer, como qualquer indivíduo. Ele pode perder o seu próprio discernimento. Isso é lamentável, mas pode-se dizer que tudo decorre da ausência de educação, principalmente de formação religiosa." (Francisco Cândido Xavier)