Centro Espírita Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

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CAPÍTULO 18: Seu Manoel

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CAPÍTULO 18
 
 
 
                  Seu Manoel                                

 
                                           Antonio, seu Artêmio e dona Anastácia        
                                         conversam com um dos grandes sábios     
                            do sudoeste.                                      



               No sábado à tarde Antonio estava sentado à sombra do abacateiro no fundo do quintal da morada, tomando o mate costumeiro, quando chegou seu Artêmio e dona Anastácia acompanhados por um homem de cinquenta anos que foi apresentado como sendo seu Manoel.
               Antonio não deixou de reparar em suas vestimentas de homem citadino e em seu costume de manter um molho de chaves nas mãos enquanto conversava. Ele trabalhava em funções junto às autoridades judiciárias e, segundo dele diziam, era muito inteligente, conhecedor profundo dos conflitos da região e homem de bom senso, tanto que quando alguém o procurava para obter algum conselho, sempre saía com o coração renovado.
               Seu Manoel era o típico caboclo, de meia estatura, pele cor-de-cuia, olhos negros, cabelos começando a ralear na cabeça. Antonio sentiu que seu Manoel era homem de confiança de seu Artêmio, por isso não se constrangeu em fazer perguntas em meio à conversa amiga.
               ― Seu Manoel é nosso amigo há longo tempo e nosso padrinho de casamento – Artêmio apresentou o visitante a Antonio com um largo sorriso, como a dizer que o homem que estava diante deles era alguém muito importante na cidade. – Veio nos visitar e achamos conveniente que o senhor também o conheça.
               ― Muito prazer seu Manoel – cumprimentou-o Antonio, convidando-o a sentar num dos bancos sob a árvore frondosa. – Seja bem vindo à nossa morada.
               ― Trouxe seu Manoel para nos brindar com sua conversa franca e sábia – continuou seu Artêmio sentando-se num dos bancos, enquanto oferecia lugar ao seu lado para a esposa. – Conversar com seu Manoel é muito proveitoso.
               ― É bondade sua seu Artêmio – comentou seu Manoel enquanto se acomodava no banco de imbuia, especialmente preparado para ficar no tempo, aguentando as intempéries. – Sou apenas uma pessoa que procura estudar os problemas sob diferentes ângulos para compreender o que cada um sente sob o seu ponto de vista.
               ― Discordando de seu ponto de vista, posso afirmar que o senhor é um verdadeiro conhecedor dos mais diferentes assuntos – Artêmio dizia isso com conhecimento de causa, pois sabia o quanto seu Manoel era requisitado para opinar sobre muita coisa que era discutida. – Digamos que o senhor é apenas um homem com bom nível de conhecimentos.
               ― Gostaria que o senhor nos falasse sobre as confusões que estão acontecendo na região quanto à posse de terras. – a proposta de dona Anastácia dava rumo à conversa entre os amigos.
               ― Os senhores sabem que parte de nossa região estava incluída na disputa de terras entre o Paraná e Santa Catarina, no início do século, no chamado Contestado. Em Pato Branco e Clevelândia haviam os pinheirais e depois, para os lados de Palmas, os campos onde passavam tropas para Sorocaba. Os estados reivindicavam a posse das terras que abrangiam o território imenso desde Barracão, na divisa com a Argentina, passando por Palmas, Porto União, Caçador, Irani, Campos Novos, Curitibanos. Nossa região ainda era inexplorada, com pouquíssimos moradores, e, somente depois da Guerra do Contestado, é que começaram a abrir picadas maiores para o desbravamento.
               ― Nessa região, onde é que começaram as colonizações? – a pergunta de seu Artêmio procurava desvendar o imbróglio da colonização da região.
               ― Seu Artêmio, os tropeiros utilizavam os caminhos de Curitibanos, Lapa, para chegar a São Paulo, e também havia caminho pela região de Palmas. Os primeiros colonizadores procuravam os campos gerais para criação extensiva de gado e para dar apoio às caravanas que levavam muares para Sorocaba. Essas “Entradas e Bandeiras”, na região que depois entrou em litígio sobre a divisão entre o Paraná e Santa Catarina, procuravam espalhar o desenvolvimento para a região oeste. Depois dos campos de Palmas e Clevelândia, os imigrantes procuraram a região onde o pinheiro era abundante, mas nada tinha de valor. Depois da Guerra do Contestado muita gente fugiu para as novas terras, que, com a divisão do território entre os estados, ficou conhecida como sudoeste do Paraná.
               ― O que o governo federal fez para desenvolver essa região? – a pergunta vinha novamente de seu Artêmio, que ouvia as respostas de seu interlocutor com muito interesse.
               ― Em 1938, Getúlio Vargas, incentivou a colonização do oeste para abrir novas frentes para produção de alimentos e também para povoar o Brasil nas regiões despovoadas. Em 1943, um decreto federal criou a Colônia Agrícola Nacional General Osório que passou a ser chamada de “Cango” para ocupar uma faixa de fronteira de sessenta quilômetros desde Barracão e Santo Antônio. Era preciso ocupar a área de fronteira para garantir a soberania nacional e, ao mesmo tempo, assentar colonos que desejavam novas terras para plantar. Os agricultores recebiam de dez a vinte alqueires de terra, casa, ferramentas, sementes e assistência médica. Isso fez com que a colonização ocorresse rapidamente, mas também fez com que os grandes proprietários se mexessem, para tomar as terras dos pequenos agricultores e, assim, aumentar suas propriedades.
               ― Sabemos que as broncas aumentaram entre as Companhias que comercializavam terras. O governo federal estava de um lado e o estadual de outro? – perguntou Antonio para compreender o que estava acontecendo na região.
               ― Com o governador Lupion a Citla fazia o que bem entendia. Quando o governador Bento Munhoz da Rocha assumiu o cargo, em 1952, proibiu o recolhimento de impostos de compra e venda de terras nesta região. Em 1953 proibiram que novos colonos chegassem à região. Depois, em 1955, Lupion volta ao governo e revoga a proibição do recolhimento de impostos sobre a comercialização das terras. 
               ― Quando entraram as duas novas colonizadoras na região? – perguntou Anastácia que sabia da existência dessas colonizadoras.
               ― Foi em 1955 que chegaram duas imobiliárias: a Companhia Comercial e Agrícola Paraná, e a Companhia Colonizadora Apucarana. A partir daí começou o terror contra os colonos que eram convidados a comparecer nas Companhias para assinar documentos da terra em que viviam. Assinavam contratos de compra das terras, mas saíam dos escritórios sem saber se as terras eram realmente suas.
               ― Qual o papel que os jagunços desempenharam nessa encrenca toda? – perguntou seu Artêmio.
               ― Os jagunços chegavam armados nas propriedades e espancavam, estupravam, incendiavam os ranchos e as plantações, aterrorizando os colonos que não podiam se defender. Os colonos eram coagidos a pagar pela propriedade ou a serem expulsos ou mortos.
               ― Do jeito que as coisas estão, com os jagunços perseguindo os colonos a mando dos grandes proprietários e das Companhias logo, logo teremos encrenca mais séria na região – seu Artêmio fez a colocação com a certeza de que os colonos não aguentariam tanta maldade e tomariam alguma atitude.
               ― Estamos no início de 1957 e já é hora da justiça começar a tomar conta da situação para serenar os ânimos. Estou pressentindo que ainda vai haver encrenca das brabas por aqui.
               ― Muita gente está sendo morta sem que as autoridades tomem qualquer medida para acabar com a violência – Antonio fez a observação com muita mágoa no coração. - Muita gente morre nesses confins de mundo sem que o povo e as autoridades fiquem sabendo. Tem gente enterrada por esse sertão que só Deus sabe.
               ― Muitas vezes, só ficamos sabendo dos casos depois de algum tempo e quando um dos sobreviventes se encoraja em contar os crimes de que foram vítimas – Seu Manoel tinha muitos conhecidos que haviam amargado a violência dos jagunços e nada puderam fazer. – Talvez esteja na hora de se fazer justiça por aqui.
               ― Será que alguns bandidos da Guerra do Contestado estão vivendo por aqui? – Antonio perguntou, pois sabia que seu Manoel era grande conhecedor da pessoa apenas em olhar o seu tipo. – Quem era jovem naquele tempo ainda está com toda a força para continuar matando.
               ― Muita gente que viveu durante a Guerra do Contestado e que eram mercenários acabaram vindo para esta região para trabalhar para os poderosos, no serviço que faziam na guerra: perseguir, estuprar e matar os sertanejos. Com certeza, entre os primeiros colonizadores desta região estavam também esses jagunços mercenários. Continuaram praticando aqui as maldades que cometiam na guerra.
                   Dizem que a Guerra do Contestado foi sangrenta e nela morreram milhares de pessoas, muitas das quais nas mãos desses bandidos – o aparte de dona Anastácia foi interessante e contribuiu para que seu Manoel expusesse seu conhecimento também sobre a Guerra. – Será que teremos, aqui, um novo Contestado?
                  ― Realmente, dona Anastácia, a guerra foi terrível e nela morreram mais de dez mil pessoas entre combatentes e civis. Foram quatro anos de lutas sem tréguas entre os colonos que foram expulsos de suas terras e as tropas dos governos federal e estadual. Se o governo tomar partido das Companhias de terras teremos um novo Contestado por aqui.
                  ― Qual foi a causa principal da guerra? – a pergunta chegou de súbito vindo de Antonio.
                  ― O governo federal contratou uma Companhia estrangeira para construir a estrada de ferro para ligar São Paulo a Santa Maria, com ramificações para Uruguaiana e Porto Alegre. Quando o trecho da estrada que cortava o estado de Santa Catarina estava pronta, a Companhia exigiu que o governo federal lhe doasse quinze quilômetros de cada lado da ferrovia para que pudesse extrair a madeira e depois colonizasse a região, vendendo as terras.
                  ― Por que é que a Companhia exigiu as terras próximas à ferrovia? – a pergunta agora vinha de seu Artêmio, ávido de conhecimento acerca dos antecedentes históricos daquela região.
                  ― A Companhia importava os dormentes, sobre os quais eram fixados os trilhos, da Inglaterra e isso aumentava em muito os custos da construção. Os engenheiros descobriram que a imbuia, madeira abundante na região, substituía com vantagens a importada. Outro motivo foi a existência de dez milhões de pinheiros centenários que seriam utilizados na construção de casas. Essa riqueza despertou a cobiça da companhia que exigiu a doação das terras para explorá-las livremente e depois vendê-las.
                  ― Mas na região já havia muitos colonos morando e o que foi feito com eles? – Dona Anastácia tinha preocupação com as pessoas que poderiam perder suas posses.
                  ― No momento que as terras foram doadas à Companhia, a mesma contratou trezentos vaqueanos, armou-os e mandou que expulsassem as famílias que viviam dentro dos limites dos quinze quilômetros.
                  ― Isso com certeza resultou em brigas – comentou seu Artêmio.
                  ― Foi isso o que aconteceu!... Os vaqueanos chegavam e expulsavam as famílias. Os que saíam pacificamente conservavam a vida, porém os que se opunham às ordens eram mortos a sangue frio. Usavam de extrema violência para com os sertanejos e vejo isso se repetindo em nossa região, depois de tantos anos.
                  ― O que fazer? – perguntou dona Anastácia para saber a opinião de um dos homens mais honestos que havia conhecido.
                  ― Temos que continuar trabalhando não medindo esforços para que a justiça chegue nesta terra o quanto antes. O Município já está emancipado desde 1951 e a tendência é que as Companhias que espoliam o povo e os jagunços sejam mandados embora e nunca mais regressem. Sem esses entraves a cidade prosperará e alcançará o nível de progresso daquelas que estão na dianteira.
                  ― O que vamos fazer agora? – dona Anastácia perguntou e ela mesma respondeu rapidamente - Agora vamos comer um delicioso bolo de fubá com café, leite e misturas.
                  Todos sorriram e seguiram dona Anastácia até a cozinha de sua casa onde saborearam a merenda com muito gosto.
   

 

 

Luiz Marini - Livros

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Para refletir

"Há grandes homens que fazem com que todos se sintam pequenos. Mas o verdadeiro grande homem é aquele que faz com que todos se sintam grandes." (Gilbert Keith Chesterton)