Centro Espírita Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

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Integração Brasil-Moçambique

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No dia 03 de setembro de 2010, enquanto Ahmadinejad, presidente do Irã, defendia a luta armada palestina e a 'remoção de Israel', a máquina perfuradora atingia 40 metros de profundidade na construção de um túnel na região norte do Chile, por onde os trinta e três mineiros que estão presos desde o dia 05 de agosto, numa profundidade de 688 metros, poderão ser resgatados, tivemos a oportunidade de conhecer um trabalho de grande importância relativo à integração entre povos de dois continentes.

Enquanto um incentiva a guerra, outros procuram salvar seus compatriotas presos numa mina e outros mais se preocupam em aprender tecnologias novas para aplicar em benefício de seu país.

Nesta data assistimos à exposição do trabalho de quatro africanos que estagiaram na UTFPR, campus de Pato Branco, durante dois meses. Enquanto certos ditadores pregam a luta armada, o Brasil e alguns países africanos firmam convênio para que perto de 70 estudantes estagiem em diversas regiões do Brasil, nos mais diferentes campos do conhecimento.

Eles chegaram à aula de dança no Grêmio Industrial Patobranquense, numa noite de terça feira quando a aula já havia começado. De início ficaram no hall de entrada, tímidos, juntos com o professor Edival e a esposa Yara. Devagar, foram se aproximando e apresentados. Logo estavam dançando, pois foram recebidos por todos os participantes da aula com muito carinho.

Fiz uma brincadeira com meu amigo Douglas. Pedi para a única moça do grupo africano, chamada Nelma, se ela falava inglês. Respondeu-me que sim. Chamei o Douglas que é moço de dezesseis anos e fala bem o inglês para que dançasse com ela e falasse inglês. Assim dançaram algumas músicas conversando em inglês. Depois os chamei e pedi como que foi a conversa. Responderam-me que foi tudo bem. Sorrindo falei para o Douglas: - “Então agora pode conversar em português, pois essa é a língua de Moçambique”.

Não demorou muito e já eram amigos de todos. Ficamos sabendo que são estudantes de Moçambique e que estavam fazendo um intercâmbio com o Brasil. Em Pato Branco ficaram os estudantes Jossefa Matola de 24 anos, que é Engenheiro Elétrico, formado na Universidade Eduardo Mondlane; Nelma Ngonga de 20 anos, estudante de Agricultura e Desenvolvimento Rural da Universidade São Tomas; Desidério Bila de 21 anos, estudante de Agricultura e Desenvolvimento Rural da Universidade São Tomas e Dercio Sampaio de 22 anos, estudante de História da Universidade Pedagógica.  Todas as Universidades são de Maputo capital de Moçambique.

Foram tão bem no intercâmbio que a UTFPR, campus Pato Branco, convidou Jossefa Matola a participar da turma de mestrado da Universidade na área de engenharia elétrica.

Iniciaram seus estudos junto à UTFPR em julho e concluíram em setembro. Enquanto Matola seguiu os rumos da engenharia elétrica, os outros três participaram dos estudos na área de alternância escolar, onde o aluno fica um período na escola rural denominada Casa Familiar Rural e depois volta para sua residência onde aplica os conhecimentos adquiridos.

Em Moçambique existem cerca de 10 Casas Familiares Rurais. Esses alunos vieram aprender novas técnicas para aplicar em seu país, numa demonstração de que é viável a troca de informações e tecnologias entre os povos.

No Brasil já existem as Casas Familiares Rurais há muitos anos. As Casas são originárias da França. Os pedagogos e professores observaram que os filhos dos camponeses deveriam aprender as matérias técnicas das escolas tradicionais, juntamente com matérias especificas e práticas relativas à vida no campo. Os alunos ficam alguns dias nas escolas, depois voltam para casa e aplicam o aprendizado no sítio, na lavoura, na fazenda. Aprendem desde a construir poços, banheiros, fossas, encanar água, fazer pocilgas, estrebarias, cercas, hortas, plantar, colher, etc. com as técnicas de aprendizagem melhoram muito o nível de vida que levam no campo.

O ideal Francês era manter o jovem nas fazendas e sítios, proporcionando não apenas a subsistência da família no campo, mas também o seu crescimento econômico e social. Mantendo as pessoas no campo evita-se o inchaço das cidades, com a conseqüente proliferação das favelas. A idéia francesa tem um valor extraordinário e já se expandiu por muitos países do mundo.

Também os países do continente Africano estão pensando nisso e os três estudantes que em Pato Branco afluíram para intercâmbio nessa área por certo desenvolverão em Moçambique o treinamento necessário ao povo para que alcancem prosperidade.

Diferentemente de outros estudantes estrangeiros que chegam à cidade e ficam durante um ano de intercâmbio e voltam aos seus países conhecendo poucas pessoas, esses moçambicanos granjearam centenas de amigos em apenas dois meses. Por quê? Simplesmente porque possuem algo que todos deveríamos ter: simplicidade, humildade, carisma.

No último dia em que estiveram conosco na aula de dança, formamos um círculo com todos os alunos e conversamos durante quase uma hora sobre seu país e seus costumes. Todos queriam saber algo deles. Inclusive dançaram uma música de seu país e mostraram que são muito bons nisso.

Serviram de exemplo para muitos estudantes daqui que não se esforçam para aprender e só pensam em “matar o tempo” na escola. Já se foi o tempo em que pensávamos que africanos eram sinônimo de ingenuidade, ignorância e pobreza.

Eles falam o português, engraçado sim, pois tem o sotaque de Portugal, mas também são preparados em outras línguas. Matola nos disse que estuda engenharia elétrica em livros de língua inglesa, pois são muito mais aprofundados.

Dercio que está se formando em História, nos disse que adora a história da África e fala fluentemente Francês. Desidério fala fluentemente inglês e assistiu muitas partidas da copa da África, onde se fala inglês. Confirmou que assistiu à partida: Brasil x Portugal e que a mesma foi muito ruim. Nelma também fala inglês e seguidamente vai a África do Sul e consegue se comunicar facilmente.

Tenho amigos jovens que estudam inglês, e alguns, com uma má vontade tão grande que podemos constatar que o dinheiro que os pais investem em sua formação é jogado fora.

Na apresentação dos trabalhos efetuados nesses dois meses pudemos observar que aprenderam muito e que não mediram esforços para merecer a confiança neles depositada por seu país.

Foram selecionados dentre várias Universidades e acadêmicos por terem as melhores notas e comportamento exemplar. Isso aos vinte e poucos anos de idade. E eu pergunto aos amigos: - “Como vai a nossa juventude? Procura vencer com a mesma garra desses jovens da África?”

Espiritualmente podemos dizer que durante séculos os malandros do mundo aproveitaram-se dos africanos, transformando-os em moeda de compra e venda, escravizando-os nos canaviais brasileiros e nas fazendas de algodão do sul dos EUA, entre outros países escravocratas.

No Brasil, especificamente, chegaram para atender a demanda de mão-de-obra necessária nos engenhos de cana de açúcar, minas de ouro entre outros serviços pesados. Moravam nas senzalas e sofreram todo tipo de sevicia e espancamentos que se possa imaginar. Até que em 1888 a princesa Isabel assinou a Lei Áurea, tornando livres todos os escravos do Brasil. Ficaram livres, mas sem serviço ou condições de sobreviver. Foram tempos difíceis, mas que foram ultrapassados.

Os povos africanos que aqui aportaram muito auxiliaram na constituição do Brasil. Foram elementos importantes na miscigenação com os brancos e índios, formando o povo brasileiro, mas também contribuíram de forma significativa ensinando-nos tolerância e humildade.

Pela lei da causa e efeito o mal que o Brasil causou ao continente africano, submetendo seus filhos ao cativeiro, agora começa a ser compensado em forma de intercâmbio e de comércio. Há poucos anos o continente africano começou a se libertar do jugo de povos colonizadores. Muita guerra civil aconteceu e continua ocorrendo entre irmãos na África. Mas com o tempo os governos legítimos haverão de se concretizar sob a vontade do povo, e então o progresso haverá de alcançar de vez as plagas africanas.

Quando os amigos espirituais nos dizem que a Terra estará atingindo o estágio de planeta de Regeneração, deixando de vez o estágio de Provas e Expiações, nos perguntamos como isso será feito se as guerras continuam avassalando os continentes.

Uma história do mundo espiritual narra que um Espírito de muita luz visitou a Terra e alguém lhe falou sobre os homens e as guerras que continuavam a avassalar os cantões do planeta. O Espírito olhou para o interlocutor e disse: - “Deixai que o homem guerreie em paz”.

Conclusão da história: as guerras, a fome, a pobreza, os vícios, as doenças e outros males servem também para que o homem descubra que não está na Terra para matar e sim para amar seu semelhante e ser feliz.

Essas atitudes de bom alvitre que ocorrem entre os povos semeiam a concórdia e o progresso. No dizer de Jesus “Os mansos herdarão a Terra” é o convite maior que temos para andar bem e ser mansos como devemos ser. Os violentos e maus serão banidos e os bons haverão de habitar este planeta que será repleto de paz e de amor.

Os tiranos e ditadores que massacram o seu próprio povo e os levam a guerras civis ou contra outras nações serão engolidos pelo tempo, pela civilidade. A história apenas os mencionará como déspotas que um dia, finalmente, o povo deles se livrou.

Quando perguntei aos amigos africanos o que achavam de Nelson Mandela, responderam que era um grande homem e que estava no coração de cada um. Mandela representa a libertação do povo africano e é considerado um homem de grande valor espiritual.

Lembro então de uma história contada pelo grande orador Espírita Raul Teixeira no X Congresso Estadual do Paraná, em 09-03-08. Prestem atenção no desenrolar da trama ocorrida na África do Sul.

Raul contou que no dia em que Nelson Mandela foi solto, depois de passar 27 anos preso, sentiu uma emoção muito grande e chorou, pois era seu admirador. O Espírito guia de Raul, chamado Camilo, chegou e pediu para Raul o porquê do choro. O orador respondeu que chorava por que admirava muito Mandela e que, depois de muito sofrimento, o líder sul africano estava livre.

Camilo lhe disse que Mandela ao ficar preso estava resgatando os equívocos cometidos no passado.

Quando a Inglaterra começou a colonização, havia 300 anos, da África do Sul, Nelson Mandela estava encarnado como um dos principais comandantes dos navios. Prendia, surrava, soltava, tornava a prender os negros naquela época.

Depois da morte reconheceu o erro cometido na África e começou o trabalho de resgate, renascendo em países africanos para aprender a amar o continente.

Por fim, renasceu como Nelson Mandela e sofreu a mesma humilhação que infligiu aos negros três séculos atrás. Por pressão dos países do mundo, foi libertado da prisão e venceu as eleições presidenciais na África do Sul. Desde então o apartheid não mais existiu na África do Sul e Mandela é reverenciado como um estadista e homem de grande influência.

Pelos caminhos do Senhor os povos haverão de se integrar pela paz e todos seguirão um mesmo ideal que foi estampado na mente humana desde os tempos da Revolução Francesa: Liberdade, igualdade e fraternidade.

Esses jovens moçambiquenses nos ensinaram que é possivel, com muita naturalidade, a integração entre os povos na busca de um mesmo ideal: a felicidade dos homens, não importando o local onde estejam.

 

Luiz Marini – 03/09/10

 

Na foto da esquerda para a direita: os africanos:

Dercio, Desidério, Matola e Nelma. Os brasileiros: Mateus, Lucas, Yara e Edival.

 

confraternização com mais dois africanos: Sidonio e Dilma 

 

Luiz Marini - Livros

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Para refletir

"Nem Jesus Cristo, quando veio à Terra, se propôs resolver o problema particular de alguém. Ele se limitou a nos ensinar o caminho, que necessitamos palmilhar por nós mesmos." (Francisco Cândido Xavier)