Centro Espírita Dr. Adolfo Bezerra de Menezes

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As Águas do Triste Jordão

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"Ora, João usava uma veste de pelos de camelo, e um cinto de couro em torno de seus lombos; e alimentava-se de gafanhotos e mel silvestre. Então iam ter com ele os de Jerusalém, de toda a Judéia, e de toda a circunvizinhança do Jordão, e eram por ele batizados no rio Jordão, confessando os seus pecados. (Mateus 3:4-6)".

 

Os amigos podem perguntar: pode um rio ser triste?

Respondo que sim, pode ser triste, magoado, moribundo, morto e outros adjetivos que possam se enquadrar na realidade de um rio. Desde que o homem começou a povoar a Terra, começaram as agressões à natureza e em especial aos rios.

E a água potável está cada vez mais escassa no planeta. Já estamos vendo países se enfrentando por causa da utilização das águas dos rios que cortam os seus territórios. A poluição dos rios atinge níveis alarmantes e o homem continua a jogar detritos como se no futuro não precisasse de água para viver.

Vou fazer referência a dois mares e três rios que estão sendo vilipendiados pelo homem.

 

01 – Rios Tietê e Pinheiros

Em São Paulo os rios Tietê e Pinheiros estão moribundos, pois são envenenados todos os dias com toneladas de lixo e dejetos que jogam em seus leitos. Quem sabe o grande padre Manoel da Nóbrega, fundador da cidade de São Paulo tenha dito no dia em que marcou o nascimento da futura metrópole:

- “As águas dos rios que cortam esta região haverão de dessedentar a sede dos cidadãos por centenas de anos”. Também ele nunca imaginou que as águas cristalinas dos dois rios um dia seriam poluídas a tal ponto que seriam a vergonha dos paulistanos. Mas os rios se vingam. Tanto lixo e entulho represam suas águas que sobem e formam as enchentes que tanto castigam a cidade.

 

02 – Mar de Aral

Os amigos devem ter ouvido falar do Mar de Aral que está localizado na Ásia Central. Já foi o quarto maior lago do mundo com 68.000 km² de superfície. Em 2007 já havia se reduzido a apenas 10% de seu tamanho original, e em 2010 está dividido em três porções menores e está em processo de desertificação. As nascentes dos dois rios afluentes estão distantes 2.000 km no Himalaia, e estão sendo drenados para agricultura e contaminados com dejetos e esgotos de cidades costeiras. Apenas o Cazaquistão está fazendo um esforço para recuperar o norte do mar de Aral, sendo que seu nível já subiu 12 metros.

Navio encalhado onde já foi mar

 

03 – Rio Colorado

E o rio Colorado nos EUA? Esse rio corta o Grand Canyon e segue até o Golfo do México. A transposição de águas para utilização na agricultura e nas cidades possui uma vazão extremamente reduzida, passando parte do ano sem chegar ao Golfo do México. O impacto sobre a foz do rio Colorado é a intrusão salina, desestabilização do leito e das margens do rio, com erosão e voçoroca. Quando o rio Colorado passa pelo Grand Canyon, forma um dos mais lindos quadros que a natureza forneceu para o mundo.

Grand Canyon

 

04 – Mar Morto

 Lembram do mar Morto? É assim chamado devido à salinidade de suas águas, dez vezes superior à dos oceanos, o que torna impossível qualquer forma de vida. Tem comprimento de 80 km e largura de 18 km e é alimentado pelo rio Jordão. O mar Morto perdeu, nos últimos 50 anos, cerca de um terço de sua superfície devido à exploração excessiva de seu afluente, o rio Jordão, única fonte de água doce da região. A 9 km ao norte do mar Morto está Jericó, uma das mais antigas cidades do mundo. Calcula-se que a cidade tem mais de nove mil anos. Nela transcorreu o episódio contado no Evangelho sobre o “Cego de Jericó”.

Quem visita o mar morto pode flutuar em suas águas sem qualquer problema, pois a salinidade da água não permite que a pessoa afunde.

 

05 – Rio Jordão

O rio Jordão nasce próximo do monte Hermon, sempre coberto de neve, que tem 2750 metros de altitude. A confluência de quatro torrentes que descem das montanhas do Líbano forma o rio Jordão. Perto de suas nascentes está a cidade de Dan. Na época de Cristo havia ali a cidade de Cesárea de Filipe.  Jordão significa “aquele que desce” ou também “lugar onde se desce”.

Monte Hermon

Descendo para o sul, 16 km depois da nascente, forma o mar da Galiléia, que está a 210 m abaixo do nível do mar e tem a sua foz 110 km abaixo no mar Morto que está a 390 m abaixo do nível do mar.

Desde a nascente até o mar da Galiléia o Jordão ainda tem as águas limpas, pois é muito caudaloso neste trecho.

Depois do mar da Galiléia até atingir o mar Morto é que o problema é maior. Mais de 340 mil pessoas utilizam-se de suas águas e despejam toneladas de esgoto em seu leito.

Perto da embocadura com o mar Morto, está a passagem onde João Batista batizava os fiéis ao tempo de Jesus. No local as águas estão poluídas e apresenta quatro vezes mais cloriformes fecais que o nível tolerado para a saúde humana.

As autoridades israelenses estão propensas a suspender os batismos que são realizados no local devido ao perigo que as águas apresentam.

 

Abaixo fotos do rio Jordão ao norte onde suas águas ainda são limpas:

 

Porque chamamos o rio Jordão de triste?

Esse adjetivo pode muito bem configurar a situação desse rio que está na memória de todos os cristãos do mundo, isso porque é um rio bíblico.

Gostaria de lembrar aos amigos que no tempo de Jesus, o rio Jordão era límpido qual cristal. Mas o homem conseguiu arruinar o que Deus ofereceu para a região como dádiva de amor.

 

 06 – A Palestina ao tempo de Jesus

Emmanuel através da mediunidade ímpar de Chico Xavier, no livro A Caminho da Luz diz:

- “A Palestina possuía, até então, os seus recantos maravilhosos de verdura abundante. A Galiléia era um vasto jardim, cheio de perfume e de flores.

Há dois mil anos, a Galiléia, hoje transformada em poeirento deserto, era um paraíso de verdura. Nas suas paisagens maravilhosas, desabrochavam flores de todos os climas.

Uma vegetação maravilhosa e única, operando a emanação incessante do ar mais puro, temperava o calor da região, onde o lago se localiza, muito abaixo do nível do Mediterrâneo.

Ao tempo do Cristo, a Galiléia era um vasto celeiro que abastecia quase toda a Palestina. O trigo, a cevada, as abóboras, as lentilhas, os figos e as uvas eram elementos de semeadura e colheita em todo o ano, dando à vida satisfação e abundância. Nas eminências da terra, misturando-se aos extensos vinhedos e olivais, elevavam-se palmeiras e tamareiras preciosas, cujos frutos eram os mais ricos da Palestina.

Nessa época, o formoso lago de Genesaré não apresentava nível tão baixo, como na atualidade. Todo o terreno circunvizinho era de regadio, em vista das fontes numerosas, dos canais e do serviço das noras que elevavam as águas, dando origem a uma vegetação luxuriante que enfeitava de frutos e enchia de perfumes àquelas paisagens paradisíacas.

Em Cafarnaum, além dessas riquezas, prosperava a indústria da pesca, dada à abundância do peixe no então chamado Mar da Galiléia, o que resumia uma vida simples e tranqüila.

Ali encontrou Jesus o carinho de corações devotados e valorosos, e foi ali que o mundo espiritual encontrou os melhores elementos para a formação da escola inolvidável, onde o Divino Mestre exemplificaria os seus ensinos.

Mas tantos foram os embates dos exércitos inimigos, tantas as lutas de extermínio e de ambição, que a própria Natureza pareceu maldizer para sempre os lugares que mereciam o amor e o carinho dos homens”.

O vale do Jordão era, ao tempo de Jesus, um lugar de beleza extraordinária. Com o passar do tempo às aldeias por onde Jesus passou e viveu, às margens do mar da Galiléia foram desaparecendo, transformando-se em deserto.

A Galiléia era um recanto de extraordinária beleza preparado de forma magnífica para receber o divino emissário de Deus.

Jesus escolheu um dos mais lindos lugares do mundo para propagar a mensagem divina. O lago de Tiberíades era uma das bacias hidrográficas mais piscosas do mundo, formado pelas águas cristalinas do rio sagrado do Cristianismo. Ao norte vêem-se as eminências de neve do Hermon, onde nasce o rio Jordão.

 

07 – A profecia de Jesus sobre a destruição das três cidades impenitentes

- “Passou, então, Jesus a increpar as cidades nas quais ele operara maravilhas, pelo fato de não se terem arrependido.

- Ai de ti, Corazim! Ai de ti, Betsaida! Porque se em Tiro e em Sidon se tivessem operado as maravilhas que em vós se fizeram, há muito que elas se teriam arrependido com cilício e cinza.

E, contudo vos digo: No dia do juízo haverá menos rigor para Tiro e Sidônia, de que para vós outros.

E tu, Cafarnaum, serás levantada até ao Céu? Até ao inferno serás abatida”. (Lucas 10:13-15).

Betsaida era uma das cidades que entristeceram Jesus. Porque apesar de ter sido a terra natal de Pedro, André e Felipe e de ter sido o lugar onde Jesus fez a maior parte dos prodígios, foi junto com Corazim duas cidades totalmente corrompidas, incrédulas e interesseiras. Nem mesmo Cafarnaum, onde Jesus viveu em Seu tempo de pregação, acreditou no Senhor.

As três cidades desapareceram com o tempo e em 1863 Ernest Renan descreve o mar da Galiléia como um local deserto onde apenas uma velha barca singra suas águas. Assim, a predição de Jesus sobre as três cidades se realizou completamente.

Renan constatou que o lugar paradisíaco ao tempo do Cristo, transformou-se num deserto amargo e silencioso.

Segundo Renan, o lago, o horizonte, os arbustos, as flores, eis tudo o que resta do pequeno cantão de três ou quatro léguas em que Jesus fundou sua obra divina. As árvores desaparecem totalmente nessa região, onde a vegetação era outrora tão brilhante que Josefo (historiador dos tempos apostólicos)  via aí uma espécie de milagre – a natureza teria tido, segundo ele, o capricho de por lado a lado as plantas dos países frios, os produtos das regiões quentes, as árvores dos climas temperados, carregadas o ano todo de flores e de frutos.

O lago virou deserto, uma única barca, em miserável estado, singra hoje as ondas outrora ricas de vida e de alegria. Mas as suas águas são ainda leves e transparentes. (...) antigamente, uma vegetação abundante temperava esse calor excessivo. Dificilmente se compreendia que uma fornalha como a que é hoje toda a bacia do lago, a partir do mês de maio, tenha sido o palco de uma atividade tão prodigiosa. (...) houve aqui alguma mudança de clima, provocada por causas históricas.

É o islamismo e, principalmente, a reação muçulmana contra as cruzadas, que devastaram, como um vento mortal, o cantão preferido de Jesus, conclui Renan.

 

08 – Mar da Galiléia

O mar da Galiléia, também chamado de lago de Tiberíades ou lago de Genesaré tem 21 km de comprimento por 12 de largura e é rico em peixes. Cidades como Cafarnaum, Betsaida, Magdala, Tiberíades, Gadara estavam em suas margens ao tempo de Jesus.

Mar da Galiléia

 

09 – Jesus e João Batista

Quando João Batista começou o seu ministério foi chamado de a voz que clama no deserto, aquele que prepara os caminhos do Senhor.

João era um homem que se vestia com uma pele de camelo, tendo um cinto de couro a cingir sua cintura e alimentava-se de mel e gafanhotos.

Ele era a reencarnação de Elias o profeta que mandara decapitar quinhentos sacerdotes de Baal.

"Elias já veio, e não o reconheceram". "Então, os discípulos entenderam que lhes falara a respeito de João Batista". (Mateus 17:12-13)

Para resgatar o seu carma, foi preso por Herodes Ântipas, tetrarca da Galiléia e decapitado a pedido de Salomé.

João, com a morte, resgatava o ato de mandar degolar seus inimigos quando vestia a personalidade de Elias. É a lei de Causa e Efeito cobrando os débitos aos devedores.

João começara o ministério por volta do ano 15 do império de Tibério Cesar. Em Bethabara, perto da embocadura do mar Morto onde o Jordão apresentava uma passagem relativamente fácil para os viajantes e caravanas, João pregava a vinda do Messias e batizava os fiéis com a água do rio.

Na manhã radiante de luz, Jesus aproximou-se do rio Jordão onde João pregava a vinda do Messias. Os pássaros cantavam alegrando o ambiente pleno de luz enquanto pousavam sobre as canas finas que ofereciam as sementes para o seu repasto. As canas se dobravam, quase atingindo o chão, e quando os passarinhos voejavam voltavam a se tornarem eretos como antes.

O arvoredo vetusto cobria as margens do rio. Jesus desceu pela estrada aberta para as caravanas e aproximou-se de João. Quando o Batista viu o Mestre sentiu o corpo estremecer e gritou a plenos pulmões: - “Eis o Cordeiro de Deus que tira o pecado do Mundo”.

Aproximando-se de Cristo, João disse: - “Eu é que deveria ser batizado por ti – e tu vens a mim?”

- Deixa por agora; convém cumprirmos tudo que é justo, respondeu Jesus.

Após o batismo, ouviu-se uma voz que disse:

- “Este é meu filho querido, no qual pus minha complacência.”

E Jesus seguiu o seu caminho afastando-se do rio Jordão e de João. O precursor continuou o seu trabalho de preparar as consciências para o advento do Cristo, até que foi preso a mando de Herodes Ântipas.

O Jordão continuou a correr pelas montanhas e planícies com a mesma desenvoltura de sempre, enquanto João Batista foi decapitado e Jesus Cristo crucificado.

 

10 – O rio Jordão hoje

O homem é afeito às guerras e a Palestina sofreu muito com isso. Desde a destruição de Jerusalém por Tito em 70 depois de Cristo, passando pela Jerusalém que foi tomada pelos muçulmanos e as guerras sangrentas das Cruzadas, os locais por onde Jesus passou se tornaram campos de batalha sem fim. A região durante séculos foi dominada por estrangeiros.

Em 1947 Israel através de resolução da ONU criou o seu Estado. A região, antes dominada pelos ingleses foi dividida entre Israel e Palestina. A partir daí começaram as guerras e as truculências entre os Estados e seus povos e isso é algo que causa espanto.

Atualmente o nível de água do rio Jordão ao sul do mar da Galiléia, está muito abaixo do mínimo possível, pois 98% de seus recursos estão sendo bombeados para uso humano e agrícola, para Israel, Jordânia, Síria e Cisjordânia.

E, em retribuição à dádiva da água do rio Jordão, estão despejando em seu leito milhares de litros de esgoto, viveiro de peixes, águas salinas e escoamento agrícola. Se continuarem a degradar o rio, ele estará condenado a morrer.

Vendo alguns vídeos de batismos efetuados no rio Jordão, perto de Jericó, presumivelmente no local onde ocorreu o batismo de Jesus, podemos perceber que a água é barrenta e poluída.

As autoridades Israelenses querem fazer análise da água e proibir os batismos de fiéis pelo perigo que representa o mergulho nas águas fétidas. Em noticia publicada em julho de 2010, constatamos que a poluição está quatro vezes acima do permitido.

Se durante a cerimônia o fiel tragar acidentalmente um pouco de água, o batizado pode sofrer no melhor dos casos vômitos, infecção estomacal e gastrenterite e, no pior, pode contrair doenças graves como a pólio.

 Adverte-se que banhar-se na água poluída pode provocar infecções de pele, otites, e reações alérgicas e infecções a partir de pequenos cortes na pele.

Nesse rio fica o local conhecido como Qaser al-Yahud, perto da cidade cisjordaniana de Jericó, onde, como ensina a tradição cristã, João batizou Jesus.

Cem mil pessoas visitam este local a cada ano e Israel tem interesse de que continue o turismo na região. O rio tem a chance de ser revitalizado, não por amor ao local onde Jesus foi batizado por João e sim, por representar um fator econômico de grande monta para os países fronteiriços. Milhares de fieis acorrem todos os dias aos locais chamados santos e que integram essa região, começando por Jerusalém, Jericó, o local do batismo de Jesus, o mar Morto, o lago de Genesaré, Nazaré, entre outros.

Este rio, que tem um importante significado espiritual para as três principais religiões monoteístas, o judaísmo, o cristianismo e o islamismo, também perdeu metade de sua biodiversidade.

De suas margens desapareceram lontras e corujas que não puderam suportar a salinidade e a ausência de água limpa, e muitas das árvores que ficavam na margem do curso d'água foram substituídas por juncos, mais resistentes à deterioração do ecossistema.

E se nada for feito pelas autoridades responsáveis pelo rio Jordão, teremos a morte do local onde Jesus foi batizado por João Batista?

Creio que o rio voltará a viver em sua plenitude, mais por ser um ponto turístico e envolver muito dinheiro para os países fronteiriços ao rio do que pelo amor que o homem tem pela natureza. A arrecadação de divisas fala mais alto que o amor pelo local do batismo de Jesus.

Entendo que se as pessoas compreendessem que os sítios por onde Jesus passou continuam impregnados de Sua presença, modificariam totalmente suas atitudes para com a natureza e com os referidos locais.

Também acredito que os lugares por onde Jesus andou devem continuar representando e refletindo a Sua magnificência.

 Tenho  certeza de que Deus jamais permitirá que pereça o rio que lavou tantos pecados do mundo...

 

Luiz Marini / Julho 2010.

 

Fotos do rio Jordão ao sul onde suas águas estão poluídas:

 

Luiz Marini - Livros

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Para refletir

"Dedica uma das sete noites da semana ao Culto Evangélico no lar, a fim de que Jesus possa pernoitar em tua casa." (Joana de Angelis)